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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A última grande cartada de Miles

Em seu longo percurso de exploração sonora, nas cerca de quatro décadas em que esteve atuante, Miles Davis (1926-1991) criou e indicou novos rumos, dialogando com seu tempo e mostrando caminhos possíveis futuros. Curiosamente, o free jazz foi um dos poucos campos musicais que o trompetista rechaçou _os mais maldosos dirão que é porquê o free nunca teve apelo comercial e de público, que tanto seduziam o trompetista... Cool, bebop, hard bop, modal, free bop, fusion, rock, funk, pop: o trompete de Miles circulou por todas essas esferas.


A primeira grande enxurrada de críticas e acusações sofridas por Miles veio na virada dos 60/70, quando se aproximou do rock, eletrificou os instrumentos e passou a tocar em espaços destinados ao público roqueiro. Soa exagerado ouvir certas provocações de que esse diálogo de Miles com o rock teve apenas o estímulo de sua ganância pela fama: basta ver o resultado musical alcançado em obras como Bitches Brew e Big Fun. Esses não são álbuns fáceis de se ouvir e apreciar. Eram “intocáveis” nas rádios _muitas faixas acima de 15, 20 minutos, sem vocais ou temas com apelo para se tornar “hits” assobiáveis. Ainda acho curioso que “Bitches Brew” tenha vendido 400 mil cópias em seu primeiro ano (em uma época em que os discos de jazz vendiam, quando muito, 100 mil), para depois alcançar a marca de 1 milhão. Costuma-se dizer que Miles atingiu o público roqueiro com aquele álbum, que teria sido seu grande consumidor: velhos tempos em que o público de rock estava aberto a expressões artísticas tão distantes de seu meio.

O primeiro passo dessa última grande investida de Miles Davis (sou dos que dispensam sua produção dos anos 80) veio em 1968, ainda em meio a seu mítico quinteto daquela década (Hancock-Shorter-Carter-Tony). Em Filles of Kilimanjaro, temos Hancock no piano elétrico e Ron Carter no baixo elétrico (duas faixas já são tocadas por Dave Holland: Carter não estava interessado em eletrificar seu dedilhado). Essa sessão, gravada em junho/setembro de 1968, é o perfeito elo de transição entre o quinteto que criou os clássicos Nefertiti e Sorcerer e o que viria nos próximos anos. “Filles” chegou com timbres e sabores novos, mas ainda com composições bem estruturadas, em uma arquitetura mais próxima de seus trabalhos anteriores. O próximo passo foi In a Silent Way, gravado em fevereiro de 1969, que apresenta um campo sonoro realmente diferente. Bastante delicado, “In a Silent Way” não explicita os flertes de Miles com o rock, apesar de contar com a participação do guitarrista John McLaughlin e de teclados elétricos. Em agosto daquele ano, seria gestado o surpreendente “Bitches Brew”, que demarcaria a entrada em uma nova era. Diferente do que o termo jazz-rock, muito utilizado na época, indica, esse trabalho não tem sabor roqueiro _que veríamos, na realidade, apenas nos últimos trabalhos de Davis em 1975, como “Pangaea” e “Agharta”, que traziam dois guitarristas e uma pegada muita mais filiada a um Jimi Hendrix que a um Jim Hall.








Se o trompetista nunca mergulhou na máxima liberdade improvisativa, foi nesse período que criou sua música mais livre. As sessões de “Bitches Brew”, como conta Miles em sua autobiografia, ocorreram em meio a ampla liberdade criacional, com a música acontecendo no momento, embebida em estímulos temáticos (está certo que peças do álbum foram depois editadas/coladas/remontadas por Teo Macero, a partir das massas sonoras criadas nas sessões). Infelizmente, “Bitches Brew”, com sua dúzia de músicos originais (dois bateristas, dois baixistas, teclados, guitarra, sopro e percussão), nunca foi executado em sua plenitude no palco. Miles, no período, sempre se apresentava em sexteto ou septeto, e apenas resgatava alguns dos temas do álbum nos concertos.

Por quase sempre ter estado ligado a uma gravadora de grande porte, além do apelo que seu nome ainda representa, todos esses trabalhos de Miles permanecem em catálogo e são facilmente encontráveis. Sobras de estúdio já devem ter sido todas queimadas nas incontáveis reedições que os discos receberam nos últimos anos. No caso de shows ainda oficialmente inéditos, temos visto, aos poucos, surgirem como bônus nas edições de luxo/comemorativas que têm saído no mercado (como a de ‘40 anos’ de “Bitches Brew” que acaba de ser lançada).

Miles iniciou a década de 70 com seu último grande grupo fixo desmembrado _Wayne no Weather Report; Tony Williams no Lifetime; Hancock em carreira solo_ e foi acompanhado, até 1975 (quando se retirou da música por quase cinco anos), por uma extensa lista de instrumentistas.

Nesse concerto de outubro de 1970, no Fillmore West _que permanece, até onde sei, sem edição oficial_, vê-se a participação de nomes futuramente famosos, como Keith Jarrett e Gary Bartz, que tocaram por pouco tempo com o trompetista. O show _boa oportunidade para degustar a música de Miles do período_ foi transmitido por uma rádio de São Francisco (há apenas uma pequena intromissão de locução na segunda faixa) e, conta-se, não traz apenas “Directions”, que teria aberto o show. O resto é o que alguns privilegiados puderam ver e ouvir.


1. Honky Tonk
2. What I Say
3. Sanctuary
4. Yesternow
5. Bitches Brew
6. Funky Tonk / The Theme

Live at Fillmore West Auditorium, October 15, 1970.


*Miles Davis - trumpet
*Gary Bartz - soprano and alto sax
*Keith Jarrett - electric piano, organ
*Jack DeJohnette - drums
*Michael Henderson - bass
*Airto Moreira - percussion
*Jumma Santos - percussion

6 comentários:

fabricio vieira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
akirarw disse...

Vale lembrar que Miles só deu espaço para o rock por conta da grande influência que Tony Williams tinha sobre ele, chegando em alguns momentos a ser conselheiro musical de Miles, que relutava em permanecer no ortodoxismo do jazz.

fabricio vieira disse...

Uma pena que o Tony Williams não tenha participado de álbuns como "Bitches Brew" e 'On the Corner". Não que o Jack DeJohnette não desse conta, mas queria ver Tony ali naquele novo ambiente. Conta-se que o Tony teve tb importante peso na troca do mais contido George Coleman pelo Wayne Shorter.

E não podemos ignorar tb a relevância da Betty Mabry, companheira de Miles em 68/69, que tinha na época 22/23 anos e representou, para ele, a entrada em um novo mundo, repleto de funk e rock.

akirarw disse...

Um amigo meu teve aulas com George Coleman e disse-lhe que Tony era muito impulsivo e é compreensivel que Coleman tenha diferenças com Tony. Miles mesmo não conseguindo gravar takes inteiros sem edição, sempre administrou bem sua carreira, inclusive com visão de mercado, para manter-se nele. Nos anos 70, ninguém queria saber do Duke Ellington!? Se não fosse o Norman Granz e o selo Pablo, Duke ficaria um bom tempo sem gravar. E Miles começou a perceber que não podia se manter "ortodoxo" no jazz, por isso se manteve muito bem até Tutu. Eu pessoalmente não gosto da maioria das gravações de Miles dos anos 80. Bem, é isso, ele foi esperto se atualizando no início da fusão no jazz.

Michael Rowland disse...

Wow! You're blog looks very interesting, I'm going to look and listen around midnight.-M

Xavier disse...

Oi, curti seu post. Eu o achei quando procurava uma foto para colocar no final do post do meu blog, aonde fiz uma tradução de um artigo sobre o making off do Bitches. Espero que goste assim como gostei do seu. www.xavisownexperience.wordpress.com