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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Ignorar um quarteto excepcional: um crime (inafiançável) contra os ouvidos e a alma

Não parece que está para acontecer um dos maiores eventos jazzísticos, em um bom tempo, por essas bandas. Na próxima semana, teremos a rara e inédita oportunidade de presenciarmos, no mesmo palco, alguns dos maiores nomes da música contemporânea: Ivo Perelman, Matthew Shipp, Joe Morris e Gerald Cleaver.
Esse quarteto, recém-reunido, fará sua estreia mundial em SP: nem norte-americanos nem europeus já viram esses caras juntos. E, percorrendo sites, blogs, twitters e afins, o que parece é que nada acontece. Com solitárias exceções, como a do antenado Vagner Pitta, do Farofa Moderna, nada tem sido dito.

A recente passagem de Pharoah Sanders pelo país gerou muito alvoroço dentre os que dizem se interessar pelas alas mais radicais, experimentais e inventivas do jazz. Mas isso não surpreende: como tanto disseram por aí, Pharoah foi um dos últimos parceiros de Coltrane (então, vamos vê-lo! Simples assim, como se esse fosse seu único e grande mérito...). E esses caras? Tocaram com quem?


Esse quarteto-fantástico fará dois shows no Sesc das proximidades (Pompéia e Osasco) e mais um no interior (Bauru). E quem tem comentado? O problema deve ser de ignorância mesmo: ignora-se quem seja Matthew Shipp ou Joe Morris: simplesmente dois dos maiores criadores de sons vivos, que deveriam estar fazendo a apresentação principal de qualquer um desses ‘festivais de jazz’ que pipocam Brasil afora, estimulados apenas porquê “é fino ouvir e falar de jazz” e não devido à relevância das criações musicais brotadas nessa seara. O mais lamentável é que verba não é problema: afinal, entra ano, sai ano, Diana Krall, Madeleine Peyroux e John Pizzarelli aparecem para tocar nas redondezas _e é impossível seus cachês serem menores que os dos protagonistas dessa gig inacreditável que teremos a oportunidade de ver... Então, tudo resume-se à ignorância de muitos de nossos produtores e curadores, inconscientes do que ocorre no mundo contemporâneo da música jazzística _se estiver fora do âmbito (da lista de melhores) da Down Beat, esquece. E quando alguma iluminada mente resolve trazer o que realmente importa, poucos notam.

Não estamos aqui falando de Brotzmann e seu “Full Blast” ou de Mats e o “The Thing”, com seus pesos roqueiros que, fatalmente, espantam o público médio.
Pensemos em Matthew Shipp e a abrangência de seu trabalho.
Sempre com genialidade e gosto apurado, Shipp tem se tornado um dos nomes do jazz mais abertos a novas sonoridades: gravou com os rappers do Antipop Consortium, os campos eletrônicos do DJ Spooky e o psy-guitar de J.Spaceman (sim, Jason Pierce, do Spacemen 3). Além disso, há o seu ‘Nu Bop’, trabalho altamente moderno e sedutor. Neste ano, Shipp ainda tem conduzido uma turnê em piano solo. Quero dizer: um cara como ele poderia já ter desembarcado por aqui em diferentes contextos, protagonizando festivais diversos. E quando chega a hora de o vermos, parece que apenas mais um pianista está para tocar em mais um show semanal do Sesc...


Sobre o Ivo Perelman, já falei mais extensamente por aqui (o post de abertura desse espaço foi dedicado à obra dele). Como que o mais importante nome do sax, do jazz, do free jazz, da improvised music já nascido no país NUNCA foi convidado para tocar em um desses ‘festivais’? Ia espantar o público com sua "ruidosidade"? Não valeria à pena correr um risco desses?
Mas Arte é risco! Música é risco! Jazz é risco! Se assim não fosse, o esforço criacional não faria sentido. Quem quer o mesmo, que pague R$ 120 para ver o Irvin Mayfield tocar sua ‘homaggio’ a Basie e Duke: não tenho dúvidas de que irá esgotar. Afinal, se custa tanto não pode ser ruim...

Para quem estava desatento a tal quarteto, ainda sobram ingressos para as apresentações de quinta (9) e sábado (11), por apenas R$ 12 e R$ 16 (meia, a R$ 6 e R$ 8). Nossos produtores deveriam ir também, sentir um pouco do que está acontecendo no jazz atual e, quem sabe, descobrirem que existem figuras como William Parker, Ken Vandermark, Susie Ibarra, Assif Tsahar, Evan Parker, Anthony Braxton, David S. Ware, Hamid Drake, Joe McPhee, Marilyn Crispell, Mats Gustafsson, Rodrigo Amado e outros tantos que fazem a música permanecer viva e jamais pisaram por essas terras.

7 comentários:

Claudio disse...

Oi Fabricio,
Gosto muito do seu blog, temos muitas afinidades musicais.
Coloquei o texto acima na comunidade do Ivo no Orkut com os devidos créditos
Abraço
Claudio

http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=3974744

Vagner Pitta disse...

Parabéns pelo texto indignado, meu caro!


Ah se eu fosse um jornalista ou um produtor, ou qualquer outro bacana da mídia que pudesse fazer algo mais consistente pra divulgar o jazz e toda a música contemporânea além do humilde Farofa Moderna...


Realmente não dá pra entender como que nossos produtores não se antenam: e vejam que nem é mais o caso do cara precisar viajar pros EUA ou Europa pra se interar do circuito, já que as informações estão aí na internet pra quem quiser se interar. Se o cara lê bem em inglês, então, ele tem todo o macete pra estar antenado com tudo que rola no jazz. No entanto, nossos produtores, radialistas, editores de sites especializados e jornalistas preferem ficar na mesmice, nas limitações do seu pouco entendimento, nas limitações do mainstream tradicional, quando até mesmo o mainstream contemporâneo abriga músicos criativos que estão precisando levar sua música à um público maior. E se tiver divulgaçao, o público acredita e compra a idéia, e vai ver o show: o produtor Toy Lima, por exemplo, acertou na dosagem do Bridgestone, chamando bandas e músicas inovadores, contemporâneos, defensores das mais variadas vertentes do jazz -- e o público tava lá.


Outra bosta é o cara divulgar um músico fazendo menção ao outro para torná-lo mais vendável: "Ah venham ver Pharoah Sanders, o saxofonista de Coltrane". Porra! Que merda! Só porque o Sanders tocou alguns anos com Coltrane ele tem que ficar estigmatizado como "O saxofonista do Coltrane"? Ora, Sanders não é saxofonista de ninguem, a não ser de si mesmo. Sander tem uma carreira tão grande ou maior ainda que Coltrane (considerando as proporções, claro): a diversidade de elementos estilísticos trabalhados na discografia dele é notável.

Concluindo: não tenho nada contra quem gosta de Diana Krall, pois eu tbm gosto dela. Não tenho nada contra quem gosta de John Pizzarelli, Madeleine Peyroux ou até mesmo artistas mais pop music -- pois há muitos artistas pop que, dentro do contexto "pop", são até mais criativos que alguns músicos revivalistas de jazz --, mas o que a mídia brasileira e os nossos apreciadores precisam levar em consideração é que estamos muito atrasados em termos de concepção cultural, artística e educacional. Tem de haver um maior equilíbrio entre divulgar aquilo que já é palatável -- e que, portanto, o ouvinte leigo já irá gostar logo de cara -- e divulgar aquele outro que é inédito, que é inovador, o que instiga as pessoas a aprimorar sua base cultura, seu conhecimento, sua educação.

Enfim, compartilho contigo, Fabricio, a mesma indignação. Aliás, tu tens visto os textos que escrevo no Farofa: no texto que fiz sobre o Brigestone, na entrevista com Christian Scott, disse, inclusive, que nos falta uma mídia atuante que documente e informe o público brasileiro sobre o jazz e a música contemporânea em geral.


Mas é aquela coisa, a mídia brasileira quer falar de jazz -- Diana Krall, Madeleine Peyroux, Brad Mehldau e Miles Davis -- pra parecer antenada, sofisticada, cool..., mas é incapaz de falar sobre o jazz contemporâneo em sua abrangência, é incapaz de abordar o leque do jazz contemporâneo: isso não porque ela não pode, mas porque ela não quer fazÊ-lo -- ao invés disso, ela prefere se empobrecer, abarrotando seus espaços de música do pop internacional e ignorando até mesmo a própria cultura brasileira...Triste..

fabricio vieira disse...

valeu, Claudio.
valeu, Pitta.
Existe um problema em todas as esferas, que passa pelos produtores, pela mídia, pelo público. Nós fazemos o que é possível para tentar levar grandes sons a quem não os conhece (aqui no Free Form, aí no Farofa, e em mais alguns bons espaços que existem perdidos por aí). e vamos fazendo nossa parte, à espera de tempos melhores!

akirarw disse...

Além de tudo, alguns anos atrás, quando conhecí o Ivo, conhecí uma pessoa que foi muito simpática comigo, sem formalismos e convenções sociais, claro que um amigo em comum ajudou muito, pois eu o conhecí fora do contexto "Ah, o Ivo Perelman, saxofonista de free jazz brasileiro". Não, fui convidado à conhecer uma pessoa ("um amigo que mora no exterior e por acaso é músico e vem se apresentar aqui e vamos nos reencontar e bater um papo").

Thiago Miotto disse...

Coincidentemente ontem estava pensando em algo do tipo. Por causa do último ano, em que o cotidiano estava me massacrando, há tempos não divulgava momentos assim e ontem resolvi tirar a poeira e voltar a divulgar nos poucos espaços que tenho alcance.

Infelizmente quase todos os auto-denominados "cultos" da música no Brasil que possuem espaços nas mídias pararam no tempo. Ou vivem de passado ou cultuam quem interessa pra mídia, isto é, alguém que não "se arrisque" artisticamente (pra colocar em suas palavras), mas apenas dê um retoque aqui e outro ali em termos estéticos.

Por falar nesse culto do mais do mesmo, dê uma olhada no vídeo a seguir: http://www.youtube.com/watch?v=qHBVnMf2t7w

Não creio que a mídia brasileira mude em termos de dar mais espaços para a música inventiva; resta a esperança de tempos melhores na educação musical do brasileiro de modo geral, talvez aí veríamos alguma mudança.

Abraço

Namaguideras disse...

Parabéns pela postagem, Fabricio!
Um manifesto praticamente!

Abraço.

Luiz E. Galvão

fabricio vieira disse...

valeu, Galvão!