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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Música (sempre) Nova

O free jazz e a free improvisation não representam as únicas esferas sonoras que vivem às margens. Se pensarmos na ala rocker, basta ver como se compõe o universo do black metal, que também sobrevive em um mundo paralelo. Essa realidade também alcança o campo conhecido como erudito. Apesar de o nascedouro das vanguardas eruditas ser praticamente centenário (pensemos nos primeiros trabalhos de Stravinsky e na estruturação do dodecafonismo por Schoenberg), ainda permanecem fora do circuito das grandes orquestras e salas de concerto. Peguem a programação da Osesp, da Filarmônica de Berlim ou da Sinfônica de Londres, em qualquer ano, e verão que é a música dos séculos XVIII e XIX que predomina. Quando algum autor contemporâneo entra na programação, ou é porquê sua sonoridade é ‘neoclássica’ ou porquê resolveram fazer um concerto ‘de perfil moderno, diferente’, como algo exótico, como ver um filme mudo em uma sala de cinema convencional. Qual o motivo do conservadorismo ainda comandar o universo musical? Por que isso não ocorre, por exemplo, no mundo das artes plásticas?


Nesse cenário, o surgimento de figuras como Gilberto Mendes (1922, Santos) mostra que não adianta ficarmos apenas nos lamentando pelo estado das coisas. Neste momento, Mendes comanda a 45.ª edição do Festival Música Nova – que acontece agora, se estende até o fim do mês –, destinado a apresentar sonoridades contemporâneas. O evento, criado por ele em 1962, tem sido realizado com periodicidade anual, com pouca (ou menos ainda) verba, com ou sem apoio ou perspectiva de público amplo ou cobertura midiática. Mendes conduz o evento heroicamente há quatro décadas, independentemente da descrença de muitos em relação à vitalidade da “música nova”.

A história de Gilberto Mendes impressiona pela sua singularidade. Nascido em Santos (litoral de SP), o compositor teve de trabalhar, até se aposentar, como bancário na CEF, pois, óbvio: era impossível sobreviver da música radical que fazia. Foi assim, ganhando a vida em uma agência bancária, que Gilberto Mendes gestou uma das obras mais ricas e criativas do repertório contemporâneo. Indo de criações de uma radicalidade mais dura, embebidas no serialismo integral idealizado por Boulez e Stockhausen, passando pela liberdade aleatória e a soltura dos happenings de John Cage, alcançando o lirismo em lieder apoiados sempre em poesia brasileira, a obra de Mendes registra um catálogo de aproximadamente 180 composições – a maior parte desse material, claro, não dá para encontrar editada no país... Mendes sempre advogou que se deve fazer música sem copiar os rumos europeu e norte-americano (onde estão seus principais ouvintes).
Música experimental, mas à minha maneira. Experimento com linguagens, combinatório, visando uma nova linguagem para um momento novo, atemporal. Naturalmente pesa nessa experiência o meu repertório, os sons que formaram meu gosto musical. Outro compositor, com outro gosto, usando a minha técnica, vai tecer uma outra malha sonora”, in “Viver sua Música” (Edusp/Realejo, 2008).

 

Nesse álbum, estão reunidas peças de Mendes dedicadas, principalmente, a trabalhos com coro – exceção de Blirium, composição aleatória em piano solo. Dentre essas peças, destacam-se as experimentações de “Nascemorre” e “Vai e Vem”. Os efeitos alcançados nas duas composições impressionam, não apenas pela inusual instrumentação, mas pelo trabalho com a palavra:

*Nascemorre – poema de Haroldo de Campos – experiência de música aleatória e microtonal com vozes corais, percussão, 2 máquinas de escrever, tape. 1962/63.

*Vai e Vem – poema de José Lino Grünewald – coro, tape, toca discos, papel de seda sobre pente , flauta doce. 1969.

01 Blirium C-9 (piano solo)
02 Asthmatour (texto de Antonio José Mendes)
03 Motet em ré menor (Beba Coca-Cola) (poema de Décio Pignatari)
04 Nascemorre (poema de Haroldo de Campos)
05 Vai e Vem (poemas de José Lino Grünewald)

-Caio Pagano, piano
-Madrigal Ars Viva
-Roberto Martins, regente

Recording Date: London, 1979

 GM 


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Próximos destaques da 45.ª edição do “Festival Música Nova”:

"no Sesc Vila Mariana"

*“Fragmentos Kafka”
-Ópera 24 (1986) de György Kurtág, para soprano e violino.
 Hoje (dia 15), às 20h30

*Rohan de Saram (cello) e Beatriz Alessio (piano) – peças de Morton Feldman, Elliot Carter e Gilberto Mendes.
Dia(s) 19/10, 21/10
Terça e quinta, às 20h30.

*Ensemble Continuum (NY)
Dia 27/10, quarta, às 21h.

"no Sesc Consolação"

*Andrea Kaiser e Joaquim Abreu (voz e percussão)
Dia 19/10 Terça, às 21h

*Alvin Lucier (compositor americano; música eletrônica viva)
Dia(s) 20/10, 21/10, quarta e quinta, às 21h. 

5 comentários:

Claudio disse...

Fabricio,
Conheço o trabalho do Gilberto Mendes ha muitos anos,ele é daqui de Santos. Já fui em muitos festivais de Musica Nova quando era sediado em Santos ( Teatro Municipal ).Hoje devido a falta de apoio é realizado em varios locais em São Paulo e as vezes alguns musicos vem para Santos.
Me recordo que ha muitos anos um dos convidados era o Stockhausen, mas ele estava doente ou teve algum imprevisto e não veio mas mandou o filho dele ,o Markus Stockhausen com o grupo dele para se apresentar. Antes do inicio da apresentação do MArkus, ouvimos uma obra até então inédita do
KARLHEINZ STOCKHAUSEN apresentada em fita de rolo com som quadrifonico ( ou estereo 4.0 ).
Para minha surpresa haviam na plateia no teatro somente 17 pessoas contando comigo,o Gilberto Mendes e músicos da região que acompanhavam o evento. Não dava para acreditar.
* Fiquei surpreso com a programação desse ano (2010) pois incluiram o Alvin Lucier de quem admiro muito o trabalho. Ele ficou conhecido com obras eletronicas como ' I'm sitting in a room' de 1970( para fita magnetica e voz ) onde lê um pequeno paragrafo de um texto e o trecho lido é manipulado eletronicamente até ficar quase irreconhecivel. Outra obra impactante do Alvin Lucier é ' Music for solo performer'(de 1965),obra para ondas cerebrais amplificadas e percussão .Neste experimento, Lucier ligou eletrodos na própria cabeça e os impulsos cerebrais acionavam instrumentos de percussão.
Existe video disso,inclusive lançado em DVD
Achei no You Tube uma reinterpretação da obra,mas sem a participação do Alvin :
http://www.youtube.com/watch?v=3uuYNKVQNMU
O site do A Lucier é :
http://alucier.web.wesleyan.edu/

Não poderia deixar de citar o DVD ,documentario do Gilberto Mendes chamado ' A Odisséia Musical de Gilberto Mendes
Mais detalhes :
http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_dvd.asp?produto=14220

Abraço
Claudio

Thiago Miotto disse...

"Qual o motivo do conservadorismo ainda comandar o universo musical? Por que isso não ocorre, por exemplo, no mundo das artes plásticas?"

No post abaixo abordo um pouco alguns dos motivos que acredito apontarem na direção desses questionamentos. Outras coisas que poderia levantar são a força da indústria cultural, o apelo a funções extra-musicais (a utilização de danças, pessoas considerada bonitas), a previsibilidade das relações tonais (a grosso modo relaxamento/resolução, desenvolvimento e tensão), a utilização de letras que falam de coisas cotidianas e que a maioria das pessoas vivencia de uma forma ou de outra...

Creio que as artes plásticas sofram menos nesse sentido porque não são tão "violentas" quanto a música pode ser. Tentando deixar mais claro - Você pode colocar a imagem mais grotesca possível numa dada obra, mas o espectador poderá fechar os olhos, desviar o olhar, ver de relance e já sentir desconforto, distanciando-se em seguida. Na música não existem "pálbebras nos ouvidos" (para utilizar um termo de Murray Schafer), assim, intervalos com aparecimento distante na série harmônica, estruturas que soam muito caóticas (pouco previsíveis), texturas densas e dissonantes (clusters, por exemplo), intensidades muito elevadas do som como prejudiciais à parte fisiológica dos ouvidos, além da própria possibilidade de se dar no tempo indo para quaisquer direções dentro de suas características... tudo isso implica carregar uma carga muito maior de imprevisibilidade do que um quadro ou escultura convencional, por exemplo.

Enfim... já estou me alongando para uma primeira pincelada. Em breve pretendo mandar um post mais aprofundado sobre as reflexões do Gérard Grisey em relação à rítmica (talvez a principal (des)organizadora na (im)previsibilidade de um discurso musical na música contemporânea).

Segue o link:

http://arteriasdaarte.wordpress.com/2009/12/13/musica-na-atualidade-parte-ii/

Abraço

Thiago Miotto disse...

Há pouco ocorreu um colóquio internacional em Ribeirão Preto denominado "submodernidades", colóquio este que contou com compositores como Piero Niro, Rodolfo Coelho de Souza, Rubens Ricciardi, Silvia Berg e Stephen Hartke. O Gilberto Mendes era um dos convidados, mas infelizmente não pôde comparecer devido a recomendações médicas.

Em relação às 17 pessoas que você comentou, Claudio, por aqui não foi diferente. Infelizmente a imensa parte dos verdadeiros músicos, principalmente em países como o Brasil, estão fadados a fecharem-se na Academia ou terem de recorrer a trabalhos fora da música, como foi o caso do nosso caro e vital Gilberto Mendes.

Claudio disse...

Fabricio e Thiago,
Fui assistir o Alvin Lucier ontem dia 20. Ele apresentou a conhecida ' I'm sitting in a room' originalmente de 1970 pra finalizar,obra onde ele se senta sozinho no palco e lê um pequeno texto que é gravado no momento,depois ela é alterado eletronicamente até ficar irreconhecivel!! Apresentou além dessas outras, sempre utilizando o principio da acústica e da modificação feita eletronicamente.
Gostei imensamente da apresentação que terminou lá pelas 22:30.

Uma pena que o Teatro do Sesc Consolação ( Teatro Anchieta) estava VAZIO !! Quando entrei haviam 3 pessoas, acho que menos de 15 pessoas assistiram essa primeira apresentação dele . Hoje tem outra.

O Alvin está com 80 anos, como estava vazio ,ele foi verificar a mesa de audio que ele também comanda e fui falar com ele que foi muito simpatico e até autografou meu ingresso. Momento único,nunca pensei que poderia ve-lo ao vivo ,já que acompanho o trabalho dele ha mais de 20 anos.
Agora só falta trazerem a Pauline Oliverois !!
Abraço
Claudio

fabricio vieira disse...

Claudio, infelizmente não pude ver o Alvin. Deve ter sido uma experiência incrível.