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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sem fronteiras para Anthony Braxton

Goste-se ou não dele, não importa: um fato é indiscutível: Anthony Braxton é uma das mentes musicais mais inventivas da segunda metade do século XX. Explorar a obra desse saxofonista norte-americano significa adentrar um campo no qual o jazz, o free jazz, a free improvisation e a música erudita contemporânea realizam intercâmbios simbióticos e conexões improváveis, em nome da ebulição de sons de expressão singular.


Braxton (1945, Chicago) é, antes de mais nada, um explorador de possibilidades sonoras. Entre a improvisação e a composição, gestou música para estampar cerca de 190 álbuns em quatro décadas. Tendo iniciado os estudos musicais na Chicago School of Music, passou também pela Roosevelt University, onde dedicou seu tempo à Filosofia e à Composição. Ligado em sua juventude aos primeiros passos da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), fez sua estréia no álbum “Levels And Degrees Of Light”, do pianista Muhal Richard Abrams, em 1967. Data desse período a formação do trio ‘Creative Construction Company’, ao lado do violinista Leroy Jenkins e do trompetista Leo Smith. No ano seguinte, gravou suas primeiras sessões como líder, reunidas em “3 Compositions of New Jazz”. O músico chamaria a atenção, de fato, em 1969, ao lançar “For Alto”, disco solo que se tornou um clássico do formato. Nessa época, formaria, com Dave Holland e Chick Corea, o inebriante quarteto “Circle”. Durante os anos 70, enquanto seu nome ganhava fama e ia se tornando uma referência na música moderna, Braxton passou temporadas na Europa, onde testou formações variadas e se associou a músicos como Evan Parker e Derek Bailey. Em entrevistas feitas naquele momento, chegou a dizer que era em solo europeu que encontrava seus parceiros mais criativos e o público mais apto a deglutir seu trabalho.

Apesar de o sax alto ser seu instrumento de lança, Braxton dedicou-se e dominou uma ampla palheta de sopros, com destaque para o sopranino e o clarinete em si bemol, e passando por soprano, sax contrabaixo, clarinete baixo e flauta, além do piano. Ouvi-lo em ação é constatar: Braxton é um virtuose consumado e um dos mais geniais executantes dos saxes alto e soprano.

Desde o início de sua carreira, Braxton buscava marcas, além das sonoras, que identificassem sua obra. Um traço característico é o fato de costumeiramente titular suas peças apenas com “Composition”, acrescido de um número e uma letra –ex: ‘Composition 40 F’ ou ‘Composition 6 C’ . Esse processo de identificação e racionalização do trabalho é interessante para catalogar a obra, porém, menos versátil para os ouvintes memorizarem o título do que estão escutando. Na década de 80, o músico resolveu organizar sua obra também por ‘opus’, como é comum na seara erudita. Não sei se tal projeto se mantém ou se foi concluído – ao menos, nos álbuns, não aparece. Outro ponto interessante é a notação gráfica própria – como já haviam feito Cage, Feldman e Stockhausen – que utiliza na elaboração de suas composições. Se os trabalhos free dispensam tais notações por sua própria natureza, outras facetas da música de Braxton – que conta com trabalhos para orquestras, grupos de sopros, sax e piano solo, duos, trios, quartetos, quintetos e até uma ópera, ‘Trillium’ – demandam algum registro.

O instrumentista também dedicou parcela de sua obra à revisitação de clássicos do jazz – à sua maneira, claro. Tal exploração teve início com “In The Tradition” (1974) e prosseguiu com “Seven Standards” (1985), passando por homenagens a ícones da música afro-americana, como em “Six Monk’s Compositions” (1987) e “Charlie Parker Project” (1993). Isso sinaliza que, se a busca pelo novo e inusual é a marca saliente da produção braxtoniana, há também respeito e admiração pela tradição jazzística.

Esse amplo espectro sonoro encampado pela genialidade do músico acaba por criar alguns ‘problemas’: não é difícil alguém ouvir o nome de Braxton, arrumar um álbum aleatoriamente, ouvi-lo e não se interessar. Para adentrar a música braxtoniana, ampla e diversa, é necessário saber onde se pisa e o que se busca em seu trabalho. Digo isso como experiência própria: o primeiro disco de Braxton que comprei foi “Open Aspects”, uma surpresa inversa, pois buscava algo free jazzístico e me deparei com uma peça muito mais ligada a buscas em certo campo erudito-abstrato. Impactante obra, mas que surpreendeu por qualidades distintas da expectativa que o nome de Braxton trazia para mim no momento.

Além de compositor e multi-instrumentista, Braxton computa longas horas como professor (Weslyan University e Mills College) e tem livros publicados (“Composition Notes A-E” e “Tri-Axium Writings”), nos quais desenvolve suas teorias musicais.

Para muitos críticos, Braxton encontrou seu grupo perfeito entre os 80/90, quando reuniu um quarteto do qual participavam Marilyn Crispell (piano), Mark Dresser (baixo) e Gerry Hemingway (bateria). Com esse grupo, gravou principalmente discos ‘ao vivo’: Quartet (London) 1985; Quartet (Birmingham) 1985; Quartet (Coventry) 1985; Willisau (Quartet) 1991; Victoriaville (1992); e Twelve Compositions: Live at Yoshi's in Oakland.
O último desses registros foi o duplo “Quartet (Santa Cruz) 1993”.



Não é difícil perceber, logo na primeira audição, que, com esse quarteto, Braxton desenvolveu fino free jazz. Nesse “Quartet (Santa Cruz) 1993”, longas improvisações, nas quais todos os quatro músicos divagam com liberdade, compõem um painel sonoro de quase 2h30, exemplar privilegiado de um trabalho musical realmente vibrante. Como o tempo nem sempre é suficiente para sentarmos e ouvirmos toda essa massa sonora em sequência, aconselho atenção inicial e especial à última parte do conjunto (ou seja, segunda faixa do disco 2). Creio que, quem não se interessar por esse 'exemplar', nem deve perder tempo se preocupando com o restante...

1.Comp. 159 + (30 + 108a) / Comp. 40(o) / Comp. 69f / Comp. 173 / Comp. 69(o) / Comp. 52 [76:06]

2. Comp. 172 / Comp. 161 / Comp. 69m / Comp. 23c / Comp. 124 + (108c + 147) [69:00]

*Anthony Braxton (reeds)
*Marilyn Crispell (piano)
*Mark Dresser (bass)
*Gerry Hemingway (drums)
  
Recorded on 19 July 1993 at the Kuumbwa Jazz Center, Santa Cruz, CA.
Limited edition of 2000
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Em um campo diferente do abarcado em Quartet (Santa Cruz), Braxton expõe em "Open Aspects (Duo)" outra faceta sonora, já distante do circuito free jazzístico. Aqui encontramos uma espacialidade muito particular, contemplando um universo musical menos palpável e assimilável do que o tratado em seu quarteto. Seu companheiro nessa exploração, Richard Teitelbaum, estudou com o gênio radical italiano Luigi Nono e formou o seminal grupo de ‘live electronic music’ MEV (Musica Elettronica Viva). Teitelbaum sempre se mostrou atento à free improvisation, tendo trabalhado com Andrew Cyrille, George Lewis, Carlos Zingaro, Otomo Yoshihide e Leroy Jenkins. Com Braxton, gravou alguns álbuns, sempre em duo (“Time Zones”, “Duet”), desfiando rumos curiosos, embalado por sintetizadores e moog.





1. Open Aspect #3 [12:43]
2. Open Aspect #1.2. [7:51]
3. Open Aspect #2  [13:50]
4. Open Aspect #4  [5:33]
5. Open Aspect #5  [10:24]
6. Open Aspect #6 (6.1./6.2./6.3.) [7:29]
7. Open Aspect #1.1.  [15:28]
 


Encarar esse “Open Aspects” significa aceitar o desafio de vislumbrar um universo distinto do que normalmente temos a oportunidade de adentrar.

*Anthony Braxton: alto saxophone, sopranino
*Richard Teitelbaum: Synthesizer [Moog], Computer [Micro Computer]

Digital Recording by Rainer Oppelland at Tonstudio Bauer, Ludwigsburg/Germany on March 18, 1982.

2 comentários:

hjulien disse...

Any problem with the Santa Cruz's second part?
I can't download this file...

fabricio vieira disse...

link is ok. try again, please.