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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Omaggio a Albert Ayler (1936-1970)

As circunstâncias da morte de Albert Ayler (1936-1970) nunca foram devidamente esclarecidas. Após a manhã do dia 25 de novembro de 1970, quando seu corpo foi encontrando boiando nas águas do East River, surgiram diferentes versões: suicídio, homicídio (haveria marca de tiro no seu corpo), acidente (chapado, caíra no rio)... Na certidão de óbito, foi registrado apenas: “Asfixia por imersão – Morte por afogamento”. Foram o pianista Call Cobbs (que tocou em diferentes oportunidades com Ayler) e o pai do saxofonista, Mr. Edward, que fizeram o reconhecimento do corpo. Ayler estava desaparecido há umas três semanas. Antes disso, havia brigado com Mary Maria Parks, sua companheira nos três anos anteriores, e deixado a casa em que viviam. Passados 20 dias sem notícia, ela procurou a polícia; pouco depois, seria avisada de que um homem com as características dele fora encontrado. Morto.


Mary Maria havia entrado na vida de Albert Ayler no período da morte de John Coltrane (julho de 1967). O relacionamento provocou uma radical mudança de rumo na vida musical do saxofonista, levando-o ao quarto e derradeiro ciclo de sua obra (veja abaixo). A alteração de percurso sonoro veio acompanhada do rompimento de Albert com um de seus principais parceiros entre 65/67: seu irmão trompetista Donald Ayler. Futuramente, Mary Maria passaria a ser conhecida como a “Yoko Ono do free jazz”. A nova fase, sob Mary Maria, foi marcada pela intromissão de elementos de R&B, soul e ‘hippie-rock’, em detrimento dos traços mais ariscos que sempre caracterizaram o sopro do músico. Para muitos, o próprio Albert sentira que esse não era um caminho frutífero e estava, quando morreu, buscando o rumo perdido.

Os registros de Ayler em ação englobam um período que vai de 1962 a 1970. Entre sua primeira gravação, “First Recordings” (também lançada como “Something Different!!!”), de outubro de 62, e o registro de “Nuits de La Fondation Maeght”, de julho de 70, contam-se 21 álbuns –sem considerar o box “The Unreleased Recordings”, nem as diferentes coletâneas e versões.
Entendo que a obra de Ayler possa ser englobada em 4 diferentes ciclos:

Ciclo 1: “Pré-Free”: entre 62/63. Nesse período, o saxofonista ainda buscava seu rumo. De sonoridade influenciada por Sonny Rollins, apenas tateava suas marcas mais expressivas, livres. É apenas nessa fase que resgata clássicos do jazz (Rollins, Miles Davis, Parker, até ‘Summertime’) em suas gravações.

Ciclo 2: “Free Jazz I”: em 64. Encontra seu rumo particular. Nasce o “Silent Scream”, traço marcante de seu sopro. Passa a trabalhar constantemente com Sunny Murray e gera seus primeiros ‘hits’, como “Ghosts” e “Spirits”. Com repertório próprio, mergulha no campo free e resgata elementos do ‘Spirituals’ e do folk escandinavo.

Ciclo 3: “Free Jazz II”: entre 65-67. Adiciona seu irmão, Donald (Don), ao grupo, que também passa a contar frequentemente com violino. Período em que explora ferozmente ritmos marciais, marcações de bandas de rua de New Orleans e marchas fúnebres, que encapsulam suas incendiárias variações free. O clássico máximo dessa fase é “Truth is Marching In”.

Ciclo 4: “Pós-Free”: entre 68-70. Associa-se a Mary Maria. Abandona a parceria com seu irmão Don.  Passa a absorver variantes de sonoridades diversas, do R&B ao gospel ao rock. Desenvolve sons não tão explosivos, que poderiam se enquadrar em certo campo proto modern creative.

Os ciclos 2 e 3 são, sem dúvida, os mais relevantes dentro da produção ayleriana. Creio que isso é indiscutível, principalmente porque não se pode especular muito sobre o rumo que sua arte teria assumido a partir dos anos 70 -ele não deixou criações novas e/ou inéditas.

Um capítulo estimulante do Ciclo 2 é sua associação com Don Cherry. Isso ocorreu durante o segundo semestre de 64. O trio de Ayler, junto a Cherry, excursionou pela Europa no período e deixou registros fantásticos, como “Vibrations” (ou ‘Ghosts’) e “The Hilversun Sesion”. O último dos registros a aparecer, apenas nos anos 2000, foi esse “The Copenhagen Tapes”, que mostra o quarteto em duas sessões em setembro de 64. Don Cherry havia fundamentado, entre 59 e 61, a formação de outro quarteto free, o grupo seminal de Ornette Coleman. Os dois grupos trabalham em períodos próximos, mas é notória a diferença de pegada. Se Ornette foi o pioneiro, Ayler soa muito mais ácido; outro ponto-base é a bateria: Sunny Murray estava em um ponto de liberdade muito mais sensível que o protagonizado por Billy Higgins (ou Ed Blackwell).
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 **Tracks 1-6 recorded live at Club Montmarte, Copenhagen, Denmark, September 3, 1964. Tracks 7-10 recorded in studio by Danish Radio, Copenhagen, Demark, September 10, 1964.

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No Ciclo 3, Ayler trabalha com um grupo diferente, que traz novos rumos e propostas diversas. Essa é a etapa em que adiciona seu irmão Don no trompete. A simbiose entre os dois é intensa. Don tem um timbre metálico que ilumina as criações com o sabor marcial/fúnebre do período. O esquema das composições dessa fase costuma se montar assim: apresentação de tema/melodia simples cantados/dialogados entre os dois sopros; sequências de solos alternados e incendiários; retomada do tema inicial. Ou seja, um esquema padrão e clássico no jazz, só que realizado de forma radical. O núcleo dessa fase, que contava com o violinista Michel Sampson, tem somente registros ao vivo, como esse Lorrach/Paris 1966.




1. Bells 13:30
2. Prophet (Jesus) 7:00
3. Our Prayer - Spirits Rejoice 6:25
4. Ghosts 3:26
5. Truth is Marching In 11:24
6. Ghosts 7:44
7. Spiritual Rebirth/Light in Darkness/Infinite Spirit 11:06
8. All/Our Prayer/Holy Family 4:45


*Albert Ayler: tenor
*Don Ayler: trumpet
*Michel Sampson: violin
*Bill Folwell: bass
*Beaver Harris: drums

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**Tracks 1-5 recorded live by South Western German Radio Network in Lorrach, Germany on November 7th, 1966. Tracks 6-8 recorded live by Radio France/Salle Pleyel at Paris Jazz Festival on November 13th, 1966.

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