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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Omaggio a Marion Brown (1931-2010)

Foi em Atlanta (Georgia) que Marion Brown nasceu, em 8 de setembro de 1931, e viveu até quase seus 30 anos de idade. Foi nesse período que aprendeu a tocar, tendo estudado música no Clark College e exercitado seu som nos longos três anos que passou no exército. Na banda militar, tocou alto, barítono e clarinete. No ano de 1960, foi para Washington, onde estudou dois anos na Howard University. Sua vida musical apenas ganharia corpo após desembarcar em Nova York, no de 1962. É curioso ver o saxofonista contar que não foi para NY movido por anseios de se envolver com o que de mais pulsante ocorria no jazz do período: ele se mudou para a cidade porquê sua mãe decidiu que lá que ambos poderiam encontrar condições melhores de vida.

Em Nova York, conheceu Archie Shepp, que seria seu primeiro grande amigo na seara free jazzística. Shepp morava no mesmo prédio que o poeta Leroy Jones (Amiri Baraka), antigo conhecido seu. Uma tarde, após visitar Jones, Brown descia as escadas do prédio quando ouviu alguém tocando sax. Pelo vão da porta entreaberta avistou Shepp. Brown entra, se apresenta e toca alguma coisa no sax soprano que trazia consigo. Logo estaria trabalhando com Shepp. Outro importante encontro desses tempos primeiros ocorreu com Ornette Coleman. Brown havia arrumado um bico na rádio WBAI, cobrindo a ausência de A.B. Spellman. Ornette ouviu-o e se apresentou ao novato de Atlanta. A amizade entre os dois altoistas surgiu no período em que Ornette saia de cena para seus mais de dois anos de reclusão. Coleman emprestou seu mítico saxofone branco plastificado a Marion, até que este conseguisse juntar dinheiro para comprar o próprio sax.

A estréia de Shepp em gravações ocorreria apenas no ano de 1965. Primeiramente, participou do disco ‘Fire Music’, de seu amigo Archie Shepp, captado em fevereiro de 65. Logo depois, entrou em estúdio para a gravação de um dos maiores clássicos do free: ‘Ascension’, de John Coltrane, em junho daquele ano. Foi Shepp que apresentou Brown a Trane, que convidou o novato para compor o extenso grupo que participou da criação de ‘Ascension’. Seria ainda em 65, aos 34 anos de idade, que Brown gravaria seu álbum de estréia como líder: ‘Marion Brown Quartet’, que teve Rashied Ali na bateria e Alan Shorter no trompete, foi gestado em novembro daquele ano. Em 66, viriam dois outros grandes discos assinados pelo saxofonista: ‘Juba Lee’, de novembro de 66, e ‘Three for Shepp’, registrado em dezembro. O restante da década seria intenso para o saxofonista. Em 67, como muitos de seus pares, emigrou para a Europa, onde se fixou até 1970.

Paris foi a cidade em que Brown concentrou-se. Nesse período, gravou com diferentes músicos europeus (Han Bennink, Barre Phillips, Gunter Hampel), fez a trilha de filmes de Marcel Camus (Um Été Sauvage e Les Temps Fou) e preparou sua sonoridade para uma nova etapa, que seria iniciada a partir de 1970, quando se realoca nos EUA.

Demonstrando sintonia com o que ocorria de novo no jazz, Brown lançou álbuns que dialogavam com certa estética free-fusion que, além de maior contemplação acústica e livre improvisação, marcou a adição de instrumentos como o piano elétrico e trouxe maior espaço a elementos percussivos e africanidades. São dessa fase os álbuns ‘Afternoon of a Gerogia Faun’ (70), ‘Geechee Recolletions’ (73) e ‘Sweet Earth Flying’ (74). A década de 70 seria também marcada por uma maior dedicação à área acadêmica. Entre os anos de 71 e 76, ele assumiu o posto de professor de música em diferentes escolas e universidades (Bowdoin College, Brandeis University, Colby College, Amherst College), tendo sido agraciado com o grau de ‘Master’ em etino-musicologia no ano de 1976, com a tese ‘Faces and Places: The Music and Travels of a Contemporary Jazz Musician’.

Apesar de manter-se relativamente bem ativo até meados dos 80s, logo a carreira de Brown encontraria seus momentos derradeiros. Esse seria um período em que o saxofonista também passaria a dedicar seu tempo à pintura, tendo realizado algumas exposições em galerias. Na segunda metade da década de 80, ele gravou apenas o álbum ‘Much More’ (88), duo de sax e piano. Ainda daria um suspiro em 92, quando gestou o material que estamparia três álbuns a serem lançados um pouco mais à frente: “Offering”, “Offering II” e “Echoes of Blue” (este com curiosas versões de Mirante do Vale, de Hermeto Pascoal, e ‘Once I Loved’ (Amor em paz), de Tom e Vinicius). O que Marion Brown encararia daí para frente seriam sucessivos problemas de saúde –aneurisma e cirurgia na cabeça; cirurgia nos olhos; a extração de todos os dentes; e a amputação de seu pé direito-, a internação em uma casa de repouso e o silêncio. Um último suspiro foi dado pelo músico em 1999, quando participou de um disco da cantora Devorah Day.

Em seus últimos dez anos de vida, Marion Brown viveu praticamente recluso. Em uma de suas últimas entrevistas, em 2005, o jornalista Clifford Allen perguntou a Brown se ainda tinha planos futuros. Como resposta, ouviu do saxofonista:

Eu pretendo comprar minha casa própria, tocar minha música, voltar à pintura e escrever minha autobiografia. Eu também gostaria de ter outro filho.

Em uma casa de repouso na Flórida, onde viveu seus últimos cinco anos, Brown faleceu no dia 18 de outubro de 2010. Ele tinha 79 anos. 

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Captado em seu período europeu, In Sommerhausen é uma das primeiras das muitas parcerias de Brown com o multi-instrumentista alemão Gunter Hampell. O disco já traz uma sonoridade mais aberta, em relação aos primeiros trabalhos de Brown, com muita percussão e os vocais de Jeanne Lee que era, na época, casada com Hampell. O disco faz parte dop ‘Top 10’ de Thurston Moore.






A1. Dance No. 1 (10:47)
A2. Exhibit B (3:35)
A3. The Sound of a Song (8:16)
B1. Malipieros Midnight Theatre (8:10)
B2. Il Ne Chant Pas (6:00)
B3. Dance No. 2 (8:50)


 
*Marion Brown: saxophone alto
*Gunter Hampel: vibraphone, clarinet [bass], percussion
*Ambrose Jackson: trumpet, percussion
*Jeanne Lee: voice
*Daniel Laloux: bass, percussion
*Steve McCall: drums, percussion

Recorded live at Bayerisches Staatskonservatorium der Musik, Würzburg, Germany, May 17th 1969.

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Sweet Earth Flying apresenta um campo sonoro diferente. Os pianos elétricos, conduzidos pelos grandes Muhal Richard Abrams e Paul Bley, criam um espectro que remete aos duos regidos na virada dos 60/70, sob comando de Miles, por Hancock/Corea/Jarrett/Zawinul. A narração de Bill Hasson na faixa 3 é um momento grandioso. Brown utiliza aqui também o sax soprano.   



A1.Sweet Earth Flying Part 1 
A2.Sweet Earth Flying Part 3 
A3.Sweet Earth Flying Part 4: Prince Willie 
A4.Sweet Earth Flying Part 5 
B1.Eleven Light City Part 1 
B2.Eleven Light City Part 2 
B3.Eleven Light City Part 3 
B4.Eleven Light City Part 4



*Marion Brown: alto, soprano
*James Jefferson: bass
*Steve McCall: drums, percussion
*Muhal Richard Abrams: electric piano, piano
*Paul Bley: electric piano, piano
*Bill Hasson: percussion, voice (A3)

Recorded May 6-7, 1974 at Intermedia Sound Studios, Boston, Massachusetts, USA. ‘Sweet Earth. Flying Part 2’ still unissued. 

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Sendo uma de suas últimas gravações, Much More traz o saxofonista em duo com o pianista Mal Waldron. Temos aqui um Brown muito mais delicado, melódico, melancólico. Os temas escolhidos passeiam por standards, como ‘My Funny Valentine’ e ‘Someone to Watch Over Me’. O álbum traz certo sabor de fim de partida.


1. Soul Mates
2. Someone to Watch Over Me
3. All God’s Chillum got Rhythm
4. My Funny Valentine
5. I Can’t get Started/Now’s the Time
6. The Inch Worm
7. My old Flames

*Marion Brown: alto
* Mal Waldron: piano

Recorded November 14-15, 1988, Gimmick Studio (France).
 

3 comentários:

Bre disse...

Oi.
Me desculpe a franca objetividade: venho pedir uma ajuda.

Há alguns anos estava baixando um álbum no "Soulseek", mas só consegui um pequeno pedaço da primeira música, e depois jamais consegui me lembrar qual era o disco ou o artista.
Creio que você talvez conheça e possa me dizer o que é, seria uma enorme gentileza.

Este é o trecho que tenho: http://www.4shared.com/audio/sUbwnCP8/INCOMPLETE_-01-Dance.html

Qualquer informação será muito bem recebida.
Obrigado desde já.

Thiago Miotto disse...

Em minhas andanças musicais (vivenciando, estudando, pesquisando) sempre me indaguei com certo pesar quantas mentes magníficas devem ter se perdido nas páginas não lidas do tempo. Resgates como nos últimos posts - de homens que infelizmente passaram longe de uma maior divulgação e consequente (re)conhecimento por grande parte dos interessados neste tipo de música - são muito importantes.

Mais uma vez muito obrigado, camarada.

Emília disse...

Parabéns pelo seu trabalho neste espaço de partilha em 2010 e faço votos que 2011 seja um ano cheio de sonhos concretizados!
Um abraço