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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sons nas Redondezas - VII

Instrumental de ponta com diversos sotaques foi uma das marcas do som brasileiro em 2011. E não estamos falando da free music/improvisação livre que comanda este espaço e buscamos cobrir mais proximamente, mas de propostas, discos, músicos novos e resultados diversificados que pipocaram em outras cercanias. É curioso que um país tão ligado à voz consiga produzir também tão variada amostra de inquietante música instrumental –e não apenas presa ao formato clássico “instrumental brasileiro”, que aprendemos a identificar em grupos que surgiram especialmente após os anos 1980...
Seguem, então, algumas dicas de audições que merecem uma conferida:     


Um dos últimos discos que chegaram às mãos no ano foi a estréia do jovem baixista mineiro Frederico Heliodoro, “Ao Vivo no Café com Letras”. Em seis composições próprias, Frederico, 23, é acompanhado por um sintonizado trio –Rafael Martini (piano), Pablo Passini (guitarra) e Felipe Continentino (bateria) –, com o qual já se apresentou em SP (há algumas semanas, estiveram no Jazz nos Fundos). O conjunto surge como candidato a se tornar assíduo frequentador dos variados festivais de jazz que têm se espalhado pelo país. Frederico disse em entrevista que prefere falar em “música contemporânea brasileira instrumental” do que em jazz para definir seu trabalho, devido à carga de referências outras além das jazzísticas que são basilares para ele, indo de sonoridades brasileiras ao rock (este sonoramente pouco perceptível no disco). Mas não vejo problema em situá-los em um campo de ‘jazz contemporâneo’ e os recrutaria, sem medo de errar o tom, para tocarem em uma mesma noite junto a jazzistas argentinos atuais, como o baixista Hernán Merlo ou o trompetista Juan Cruz de Urquiza. O quarteto soa elegante e controlado, sem exibições de virtuosismo oco (risco real nessa seara) ou perda de rumo. Quem aprecia um instrumental jazzístico-brasileiro centrado, com composições sólidas e sem muita ruidosidade explícita, pode ouvi-los sem chance de equívocos –destaque para a faixa “Crazy Song”, na qual dá para saborear bem o dedilhado de Frederico, sozinho ao baixo nos dois primeiros minutos; após a abrupta entrada do piano, a faixa se desenvolve por meio de acelerações e contenções, com belas passagens de contagiante acento rítmico e solos sob medida.

**Frederico Heliodoro: Ouça/Listen



Também estreante, mas concebido por músicos de longa estrada, o “Moksha Trio” soltou um intenso e bem delineado exemplar acústico. “Moksha” significa em sânscrito soltura, liberação, escape, representando o que os músicos buscam para o som do trio, que carrega “elementos oriundos do jazz e da música erudita contemporânea, tendo como suporte estruturas rítmicas afro-brasileiras”. A partir desses três pontos, Gilberto Ferri (piano), Lauro Lellis (bateria) e Felipe Alves (contrabaixo) constroem uma sonoridade complexa, mas sem soar abstrata ou fugidia; música destinada a ser apreciada melhor no silêncio de um teatro do que no burburinho de um bar. Ferri falou sobre algumas sonoridades que estão na base dos temas:  “Só para ilustrar, na composição dos temas do ‘Introspection’ usei, por meio de escalas alteradas, o canto gregoriano medieval Dies Irae (em ‘Ritual’); o anônimo do final do século XIII "Summer is incumem in" (em ‘Canção Antiga’); e canções de roda infantis (‘Reminiscências’)”. Ferri também lançou um álbum de piano solo, “Variações”, no qual improvisa sobre temas do cancioneiro nacional (“Canto de Ossanha”, “Nanã”), além de peça sua inédita.    
Em uma outra via, a big band “Bixiga 70” fez a festa de quem busca som com maior consistência “para bailar”, caindo nas graças de um público mais amplo. O disco de estréia do tenteto comandado por Décio 7 (bateria) e Cris Scabello (guitarra), recheado de sopros e percussão, exibiu uma marcada levada afrobeat, mas sem se desaguar em clima de revival do gênero imortalizado por Fela Kuti. Os membros do Bixiga 70 têm inclusive procurado afirmar que rotulá-los como cria do afrobeat é pouco, que suas referências percussivo-afro-rítmicas são mais amplas. De qualquer forma, o importante para os ouvintes menos interessados em faturas estilísticas é que a banda trouxe animação ao mundo instrumental, muitas vezes acusado de ser sufocado por uma pretensa seriedade. O álbum, editado também em vinil, não se contenta com a marca dançante. As faixas oscilam pontos mais climáticos e paisagísticos, que tem na postura mântrica de “Balboa Dub”, altamente grooveada pela linha circular do baixo, um momento de brilho. Saxes, trombone, trompete e percussão são basilares na articulação dos processos ritualísticos que elevam o tom festeiro que permeia o álbum, dilatando a conexão com a África sonoro-simbólica.
Buscando elementos em outros campos, o quarteto “Lavoura” trouxe no álbum “Nu Steps” um instrumental digital/eletrônico, com “referências de música brasileira, broken beats, nu jazz”, como define o baixista Fabiano Alcântara. Os sintetizadores são fundamentais na criação da textura de ondas climáticas, viageiras e, em alguns casos, também bailantes que marca as composições do grupo. As pegadas nu jazz se estabelecem em um rumo bastante distinto do nu bop de Matthew Shipp, por exemplo –no qual as trilhas jazzísticas são mais perceptíveis. E nem a entrada de sax e flauta, conduzidos por Marcelo Monteiro em duas faixas, perturba a linearidade do trabalho ou torna os temas de base mais ‘jazzy’ que ‘electro’. O baixo é componente de relevo na arquitetação do groove do quarteto, bastante marcado em “Voodoo Machine” e na faixa título. Gravado e mixado por Pipo Pegoraro (que lançou festejado álbum de estréia há pouco), esse é o terceiro título oficial do Lavoura, que foi formado em 2003. A adição da guitarra de Pegoraro em “Estação Deodoro” e “Yperoig” faz com que certo aroma retrô, pincelado de manchas acid-jazz, emane das faixas.  

**Lavoura: Ouça/Listen




E para não dizerem que esquecemos da improvisação livre, especialmente em um ano bastante ativo para o gênero: Mnstr Combo. Um dos projetos/processos criativos que brotaram em 2011, o Mnstr Combo surgiu em grande ebulição, soltando nada menos que quatro álbuns/capítulos no ano, fazendo sua estréia pública no palco da Serralheria. Com formações variadas, o Mnstr Combo explora a free improvisation em longos temas, que tiveram seu ápice ao vivo na Serralheria, onde exibiram, no dia 11/11/11, nada menos que 111 minutos de improvisação... O coletivo tem em suas fileiras o pessoal de frente do selo Zumbidor (Flávio Lazzarin, João Ciriaco, Luiz Galvão) e novos nomes da improvisação livre nacional, como o trompetista Romulo Alexis e o violinista Vagner Pitta (do Farofa Moderna), além de Rubens Akira e André Calixto.

**Mnstr Combo: Ouça/Listen 

3 comentários:

FitoPlancton disse...

Grato pelas ótimas indicações. Ouvindo aqui Heliodoro e também Bixiga 70.

Anônimo disse...

Muito bom o trabalho do grupo instrumental Moksha, além da influência de Webern que aparentemente é sugerida o som parece possuir algo do "third stream" que até então nunca havia visto/ouvido aqui no Brasil. Parabéns!

fabricio vieira disse...

Muita gente boa por aí a ser descoberta!