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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

'Space is the Place' (II)

Não conheço esse som não, nunca ouvi, falaram que é bom, malucão. Então, to aí para ver como é a doideira do som desses tiozinhos.


Frase ouvida no fim de semana, já dentro do Sesc Pompeia, pouco antes do início do concerto da Sun Ra Arkestra, vinda de um rapaz com uma camiseta grafada CBGB, devidamente acompanhado da namorada e de jovens amigos. Não imagino o que compõe o imaginário sonoro do rapaz –CBGB: punk rock, hardcore? Está certo que Brotzmann, Milford Graves e Cia. já apareceram por lá, mas isso não é regra... Nem o que ele esperava de uma big band há seis décadas na estrada. Doideira na encenação ele não viu muita, com excessão das roupas brilhantes e espalhafatosas. A Arkestra não estava acompanhada de dançarinos, cuspidores de fogo, percussionistas vários e outros artistas para ampliarem o caráter “espetacular” do concerto, como ocorria em tempos antigos... O som também não trouxe nenhuma “doideira”: em sintonia com os rumos conduzidos por Sun Ra (1914-1993) em sua última etapa, especialmente após os anos 1980, a Arkestra exibiu muito mais suas cores de big band swingante do que da flamejante orquestra avant-future-jazz que mexeu com ouvidos e corpos centradamente nas décadas de 60 e 70. Parece claro que o último suspiro free da Arkestra pulsa apenas por meio de Marshall Allen: o que ocorrerá após sua partida? Talvez a Arkestra hoje tenha vocais demais, improvisação de menos, ataques solistas tímidos e contida liberdade sonora. O resultado ainda é forte? Sim, visual e auditivamente, sem dúvida. E vale à pena, muito, vê-los em ação, tomando o palco. Sem blefes ou nostalgia, fazendo a música que Allen e seus companheiros entendem ser a melhor a ser realizada no momento. E não faltarão, como provaram, momentos saborosos, vivos e legitimamente sunrareanos. Não sei como o rapaz do CBGB absorveu a exibição, se concluiu que jazz é mesmo coisa de tiozinho ou se marcou na agenda 'imperdível' para os concertos de John Zorn e Ken Vandermak no mês que vem.

Se não ficou satisfeito com o que presenciou, nosso rapaz deveria se dirigir a registros mais antigos; é possível que se depare com algo que de fato chacoalhe sua mente, alguma doideira que justifique tanta euforia em torno do mestre de Saturno...


A primeira metade da década de 1970 foi especal na trajetória de Sun Ra. Com o nome já consolidado na cena avant-garde, o instrumentista teria a chance de ampliar seu público e a repercussão em torno de sua obra. Lá para 1972, Sun Ra deu um passo amplo nesse processo, ao assinar contrato com a lendária Impulse!, gravadora que se tornaria lembrada à frente pela incursão realizada no free jazz nascente. Além de gravações inéditas, o contrato visava relançar títulos do músico que haviam recebido apenas uma artesanal edição por seu selo Saturn. Mas esse relacionamento foi muito curto; em 74, a venda do catálogo da Impulse acabou por representar o fim dos projetos ligados ao avant-jazz, e enterrou os planos de Sun Ra. Nesse breve período de união, ao menos, houve tempo para incrementar sua história, marcando-a para sempre: e foi durante aquele 72 que o compositor chegou a um de seus clássicos máximos, Space is the Place, que trazia como tema-título o mote que sustentaria e representaria sua mensagem artística pela eternidade; foi ainda neste ano que ele realizou o filme de mesmo nome, Space is the Place, que já foi apresentado por um crítico da seguinte forma:
This experimental film is a bizarre combination of social commentary, blaxploitation, science fiction, and concert performance.” (Nunca viu? Confira aqui/here).

Meados da década de 1970 trouxeram também outras criações fortíssimas; destaque-se: “The Solar-Myth Approach”, “Universe in Blue” e “Pathways to Unknown Worlds”.
Outro grande exemplar, “Astro Black”, nasceu da associação com a Impulse na época. Uma curiosidade: esse é um dos discos esquecidos de Sun Ra, que não foi reeditado em formato algum, como ocorreu com boa parte de sua discografia dos anos 90 para cá. Motivo? Sabe-se lá... Astro Black traz o instrumentista explorando com vagar sintetizadores e o moog, criando espacializações por entre as quais sopros e percussão passeiam. O álbum destaca também a participação de June Tyson, cujos vocais são rotulados de “word-melody” nos créditos. Tyson é quem demarca a faixa-título, entoando o ponto de chamada do Astro Black; junto a ele, o baixo de Ronnie Boykins complementa a esfera melódico-ritualística, em um sedutor dedilhado rodopiante. Se o lado A contivesse apenas esse tema sublime, a fatura já estaria paga... No lado B, “The Cosmo-Fire”, em três partes sequenciais, fecha a conta. Por seus 18 minutos, esparramam-se improvisos, ataques, bailes percussivos e divagações sintetizadas formando um contínuo delírio auditivo. Space is the Place.  



*Sun Ra: keyboards (electronics), synthesizer, moog*Marshall Allen, John Gilmore, Danny Davis, Danny Thompson: saxes
*Pat Patrick, Eloe Omoe: clarinets
*Ronnie Boykins: bass
*Charles Stephens: trombone
*Akh Tal Ebah, Lamont McClamb: trumpets
*Atakaun, Chiea, Odum, Tommy Hunter: percussion
*Alzo Wright: violin, viola
*June Tyson: vocals

Recorded at El Saturn Studio, Chicago, Illinois, May 7, 1972.

2 comentários:

Diego disse...

Sou de Porto Alegre mas estava lá no sábado. Uma pérola que ouvi foi assim, de uma moça: "Ah, quem que vai estar aí? Sun Ra Arkestra? É bom né?" De minha parte eu queria que tivesse sido um pouco mais free no sentido de "enérgico", mas foi um belo show, a energia e groove dos metais lembrou-me o show dos skatalites que vi aqui em Porto Alegre. E Marshall Allen segura ainda a bandeira do "free" na banda...

fabricio vieira disse...

Não entendo quem vai a um show sem ao menos se interar sobre os traços mínimos do que irá presenciar...
E foi um belo show sim, sem dúvida.