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quinta-feira, 8 de março de 2012

Nova safra alemã: Joe Hertenstein

Para os que apreciam a música livre, a Alemanha é um pólo de referência vital, com toda a gama de músicos que o mundo descobriu ainda nos anos 1960. Recentemente, um nome vindo de lá tem chamado a atenção: o baterista Joe Hertenstein. Vivendo atualmente em NY, ele ganhou destaque após a elogiada estreia de seu trio HNH, em 2010. Hertenstein voltou a figurar nas listas dos mais expressivos lançamentos em 2011 com o álbum “Polylemma”. O músico conversou com o FreeForm, FreeJazz.



FF - Vamos começar pelo início. Como chegou à bateria como seu instrumento principal?
Essa não foi uma decisão consciente para mim. Minha mãe me matriculou em um grupo pré-escolar de música, quando eu tinha uns quatro anos, e ao chegar aos seis tive de escolher um instrumento para ter aulas particulares. Minha mãe, ou outra pessoa, foi quem decidiu –acho que isso aconteceu porque eu não conseguia ficar quieto– que eu deveria começar tentando tocar tambores. E estou preso a isso desde então.

FF - Você nasceu na Alemanha, terra de grandes free jazzistas/improvisadores. Como se deu sua relação, como músico e ouvinte, com tantos nomes lendários do free que vêm de seu país?
Eles me influenciaram, sem dúvida. Vivi por sete anos em Colônia e sempre via esses músicos e muitos outros improvisadores alemães, no LOFT e em outros lugares, como o Stadtgarten. Lembro de grande noites com o SchlippenbachParkerLovens-Trio, além de incríveis concertos do Broetzmann com William Parker e Hamid Drake. Antes de chegar a Colônia, vivi um ano em Berlim onde eu encontrava e ouvia muitos dos improvisadores da cena local. Me recordo de um show no Berlin Jazz Festival com Broetzmann e Milford Graves em duo. Lembro também de um grande concerto do Luden Petrowski com Jan Roder e Michael Griener. E Joachim Kuehn, Rudi Mahal, Axel Doerner, e tantos outros. Uma influência fundamental foi e continua sendo toda a cena em torno do LOFT, em Colónia.”

FF - O que o levou a tentar a vida em Nova York? Como estava a cena jazzística na Alemanha quando resolveu deixá-la?
Enquanto estudava em Colônia com Keith Copeland, ele me encorajou a mudar para Nova York, ele continua sendo um de meus mentores e uma verdadeira inspiração. Sinto que seu grande espírito contagiou-me, ele sempre foi um rebelde dentro do sistema universitário. E também Michael Kuettner, que dava aulas de bateria no Cologne College. Ele me ensinou muito e me incentivou a concorrer a uma bolsa do DAAD para chegar à Nova York. Acabei conseguindo e em janeiro de 2007 comecei meus estudos de pós-graduação em Jazz Performance na Universidade da Cidade de Nova York (Aaron Copland School of Music), com Michael Mossman, Jackson, Gene e Ulano Sam.

FF - E como foi se estabelecendo como músico, aparecendo em gravações...
Em 2005, Frank Gratkowski me convidou para participar do 'Choice James Orchestra’ durante três concertos no Moers Festival. A gravação de um dos shows será lançada pelo 'Music Moers’, com liner notes do John Corbett. O grupo tinha gente como Matthias Schubert, Norbert Stein, Carl Ludwig Huebsch, Lehn Thomas, Gramss Sebastian, Manderscheidt Dieter, Heberer Thomas, Campos Scott, Melvyn Poore e outros mais. Em 2007, o grupo se apresentou no Cologne Philharmonie, durante o Triennale Festival, e o segundo registro da banda foi lançado pela Leo Records. Trabalhar com esses grandes músicos e improvisadores mudou completamente minha maneira de questionar a Arte e o jazz especificamente.
Nessa época, formei um trio chamado TØRN, com Achim Tang no baixo e Philip Zoubek no piano. O álbum do trio, “Crespect”, saiu pelo selo do LOFT, '2nd floor', e o TØRN tocou no palco principal da 40 ª edição do Moers Festival 2011, abrindo para o quarteto do Ornette Coleman.
“Em Nova York, me reuni a outros alemães expatriados no trio HNH, com Thomas Heberer no trompete (quarter-tone) e Pascal Niggenkemper no baixo. Nossa estréia saiu pela Clean Feed em novembro de 2010 e o HNH tocou no 9th Portalegre Jazzfest, em Portugal. Além disso, em Nova York tenho trabalhado principalmente na cena em torno do clube Nublu, no Lower East Side, o que levou a juntar-me ao conjunto de Butch Morris, uns dois anos atrás. Em junho de 2011, me apresentei com a Nublu Orchestra, no Warsaw Jazz Summer."

FF - Queria que falasse um pouco sobre seu mais recente trabalho, o elogiado “Polylemma”. Ele é resultado de um projeto específico ou o quarteto tem planos para novidades futuras?
Já citei meu trio HNH com Heberer e Niggenkemper. Sempre fui grande fã de clarinete-baixo e imaginava a combinação do trompete do Heberer com esse instrumento, então pensei em como seria um desdobramento do HNH em um quarteto. Foi aí que conheci o clarinetista belga Joachim Badenhorst, que é um músico maravilhoso e já havia trabalhado com Heberer e Niggenkemper em outras bandas. Comecei a escrever para o quarteto, recebi uma bolsa de composição do estado alemão Northrhine-Westphalia durante seis meses, juntei o grupo, organizei as sessões, ensaios, e uma data em um estúdio. Heberer contribuiu com algumas composições e o álbum ficou bem bacana, saiu por um selo de Montreal, o 'Red Toucan'. POLYLEMMA foi premiado pelo crítico belga Stef Gijssel como “Happy New Ears”, destinado para a mais inovadora experiência sonora de 2011. O álbum recebeu ótimas críticas e, em meados de setembro, POLYLEMMA estará em turnê pela Europa. Novas composições para a banda estão prontas e trabalhamos em algumas outras. Joachim voltou para Antuérpia; eu gostaria de produzir um segundo álbum com a banda, vamos ver o que acontece ..."

FF - No myspace você cita algumas influências suas, como Alice Cooper, Tom Waits… Que tipo de música além do jazz e do free improv costuma interessá-lo?
Bem, eu cresci nos anos 80 e 90, e certamente não estava envolvido com o jazz, já que ninguém em volta de mim ouvia jazz. Minhas primeiras fitas K7 eram de punk alemão, clássicos do rádio, Pink Floyd e Guns'n'Roses. Meus primeiros vinis foram o Nevermind, do Nirvana, e a sinfonia 'Patética', do Tchaikovsky. Também passei a colecionar os discos do Alice Cooper. Tom Waits e Johnny Cash têm lugar cativo no meu coração. E também amo a música brasileira, samba, “batucadas”, bossa nova, Jobim, Caetano, Moreira, Pascoal, Passos, e muitos outros. Durante minha adolescência, toquei muita percussão clássica em orquestras sinfônicas e em grupos de música contemporânea."


FF - Você que vem da Europa e agora está em NY, tem sentido uma renovação no jazz/free improv? Em que situação estamos? Tem presenciado mais jovens envolvidos com essa música?
Há cada vez mais instituições acadêmicas que produzem um número anual crescente de músicos de jazz profissionais ao redor do globo. E não são apenas músicos sendo formados, mas também parte das platéias e fãs. Há um número surpreendentemente grande de festivais de jazz nacionais e internacionais, e não apenas de jazz mainstream, mas também de música improvisada. Eu diria que a situação da música é positiva. É claro que a música improvisada e o chamado ‘pós-jazz-avant-garde’ apenas terão um maior e renovado público se os meios de comunicação cobrirem frequentemente e derem maior atenção a esse segmento.
A relevância dessa forma artística, sua exposição e os ensinamentos sobre a liberdade de expressão para a sociedade, isso é fundamental; a liberdade de expressão nas artes é um dos mais fortes caminhos na luta por democracia, direitos humanos, tolerância e liberdade de um modo geral. Sem nenhum outro propósito além de estimular intelectual e emocionalmente, desafiar e inspirar o ouvinte/observador, acionar suas intuições, ser provocativo e, claro, também entreter; ao mesmo tempo, a experiência de fazer parte de um grupo, de um público, pequeno ou grande, ou mesmo desfrutar de arte/música na intimidade, o ouvinte se encontra por um momento livre das pressões sociais, de ser um escravo do sistema capitalista, de ser vigiado, um momento sem culpa, de puro prazer/experiência/escape, um momento de sentimentos reais –uma simplificação do que te leva à verdade. "The Earth without art would be Eh."

A cena atual é forte e ultra-criativa, testando limites, descobrindo e inventando. Fico feliz por fazer parte disso. O jazz e a ‘creative music’ estão vivos e pulsantes, mais e mais pessoas estão se envolvendo e cada vez mais a mídia tem dado atenção. Então me permita aproveitar a oportunidade para anunciar o álbum de estréia do meu novo trio, "Future Drone", com Achim Tang no baixo e Jon Irabagon no sax tenor, que será lançado em abril pelo selo berlinense "jazzwerkstatt". O trio nunca havia se encontrado antes do dia em que entramos em estúdio, uma segunda-feira logo após o Moers Festival 2011. Salvo duas pequenas melodias, o álbum foi completamente improvisado e pode servir como exemplo para tudo dito acima."

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Photo (Joe) by Peter Gannushkin / DOWNTOWNMUSIC.NET"

Um comentário:

Antonio Machado disse...

Gosto muito de jazz.
Seu blog é uma raferência jazzística!
Parabéns