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domingo, 30 de setembro de 2012

The Cherry Thing (on tour): há futuro para este surpreendente encontro?


Quando Neneh Cherry apareceu como convidada em um show do The Thing na Suécia, no começo de 2011, poucos podiam suspeitar que dali nasceria uma das parcerias mais incensadas deste ano. Na verdade, quando começaram a pipocar, um pouco mais à frente, informações de que o trio formado pro Mats Gustafsson, Ingebright Haker Flaten e Paal Nilssen-Love entraria em estúdio para conceber um álbum ao lado de Neneh, algo de estranho ficou no ar: o encontro renderia?
Don Cherry (1936-1995), padrasto de Neneh e inspirador da criação do “The Thing” (o trio nasceu em 2000 em homenagem ao mítico cornetista), parecia ser o único ponto de contato entre os artistas. Em comum, Gustafsson e Neneh são suecos, nasceram no mesmo 1964 e... não dá para ir muito além. Enquanto o saxofonista sobrevive no underground, fazendo uma música distante da grande mídia cultural, a cantora abocanhou, ainda jovem, algumas lascas do mainstream. Era meados dos anos 80 quando ela fez tocar seu som dançante, de elementos pop chamuscados de hip hop, que a ajudou a se manter em certa evidência até a década seguinte, quando gravou seu último álbum solo, “Man” (96). Talvez o desconforto com a visibilidade mais ampla tenha sido responsável por Neneh se retrair a partir dos anos 2000, período no qual acabam por se destacar em seu trajeto uma serie de parcerias esporádicas e participações especiais, como as registradas com Tricky, Groove Armada e Gorillaz. De mais recente, Neneh pôde ser vista no projeto CirKus, com quem editou o elogiado “Laylow”, em 2006. No CirKus, ela trabalhou ao lado de seu marido, Cameron McVey (que assina ali como Burt Ford) – que acabaria também por participar da produção/remix do álbum The Cherry Thing.

A face mainstream de Neneh Cherry trouxe certa estranheza aos fãs do The Thing quando, no começo deste ano, passou a circular a informação de que o disco sairia em poucos meses. Dado o perfil arisco da sonoridade do grupo, ficava um pouco difícil de imaginar como que Neneh contribuiria para o projeto: seria somente uma participação especial? Vocais em algumas faixas? Uma reunião amigável apenas com o intuito de visitar a obra de Don Cherry?





Em maio de 2012, o trio + a vocalista se apresentaram na Suécia, trazendo o repertorio que estaria presente no álbum The Cherry Thing, lançado oficialmente em 19 de junho. Para surpresa dos mais incrédulos, The Thing e Neneh Cherry encontraram o tom perfeito, realizando um disco saboroso e com momentos realmente certeiros. Mantendo-se coerente ao projeto “The Thing”, marcado por arroubos demolidores herdados do free jazz e o descompromisso cru de certo garage rock, o álbum vem amparado em covers/releituras de diferentes matizes (Stooges, Suicide, Don Cherry e Ornette Coleman), + uma composição de Gustafsson e outra de Neneh. Em uma roupagem mais organizada e melódica do que se costuma esperar de Gustafsson, The Cherry Thing não perde a essência de sua obra, não é uma curva fora e tem, sim, também seus picos mais ríspidos e trepidantes. Em especial, pode-se apreciar o sax barítono de Mats ecoando infernalmente dolorido em temas como “Dirt” e “Dream Baby Dream”, aos quais a voz densamente aconchegante e sensual de Neneh eleva o inebriante impacto instrumental (que dizer dela cantando versos como “I’ve been hurt/and I don’t care/Cause I’m burning inside/I’m just a dreaming this life/ And do you feel it?/ Said do you feel it when you touch me?”). Há no disco também elementos outros além dos que estamos habituados a encarar no The Thing; afinal, Neneh não veio apenas como voz convidada. Podemos pressentir, por exemplo, uma fragrância trip hop (sem que o gênero se embrenhe de forma protagonista) em “Cashback” e mesmo nos momentos mais letárgicos de  “Dream Baby Dream” – aí surge, possivelmente, o dedo de McVey que, se não se tornou referência do gênero, esteve em sua nascente: ele co-produziu 'Blue Lines', clássico primeiro do Massive Attack (conta-se que McVey e Neneh, que eram relativamente conhecidos no começo dos anos 90, ajudaram Massive e Portishead a darem os passos iniciais, armando esquemas em estúdio e abrindo espaços para tocarem).

Uma vez lançado o álbum, durante cerca de um mês, que se estendeu até o fim de julho, o quarteto excursionou pela Europa, passando por Espanha, Alemanha, Suécia, República Tcheca, Dinamarca, Noruega, especialmente por festivais de jazz – certo equívoco aqui, o som do quarteto se encaixaria em outros esquemas além dos reservados ao território jazzístico. Os concertos, sempre apoiados no repertório do álbum, também trouxeram brechas mais amplas para a improvisação do grupo, mas sem que isso ameaçasse a voltagem mais organizada que marca a obra. A cumplicidade e o prazer em estarem ali fica bem visível nas imagens de palco que podem ser encontradas. A dúvida é: esse clima harmonioso se manteria caso a turnê tivesse se prolongado além do mês que se estendeu? Não faz parte do esquema do The Thing centrar apresentações em repertórios precisos (um ou outro tema, como Art Star, pode se fazer repetidamente presente, mas uma turnê clássica de lançamento de álbum é outra história...). Fato é que nunca um trabalho em que Mats Gustafsson esteve envolvido gerou tão ampla repercussão. Resenhas elogiosas ao disco e aos concertos apareceram em periódicos como o britânico The Guardian e o espanhol El País, além da atenção recebida pelos  ícones indie Pitchfork e NME. É claro que a recepção calorosa dada ao The Cherry Thing deve ter empolgado os envolvidos no projeto. Mas isso será suficiente para dar sobrevida à proposta? O selo independente Smalltown Supersound, que lançou o CD/Vinil, anunciou a edição de uma versão de remixes do álbum feitos por vários artistas. A apresentação que fizeram em San Sebastian recebeu uma filmagem profissional e espera-se que acabe se transformando em DVD. De qualquer forma, independente disso tudo, quem conhece o múltiplo Gustafsson certamente duvidará que ele dê continuidade ao The Cherry Thing, ao menos não visando simplesmente abocanhar mais exposição, um troco extra: o mais provável é que nunca vejamos um The Cherry Thing 2. Ao menos, torçamos para que organizem um novo tour no ano que vem e acabem (por que não?) desembarcando no Brasil também. 




Nenhum sinal foi dado em relação à possibilidade de a turnê do The Cherry Thing render um álbum oficial ao vivo. Por aí, já circulam vídeos e arquivos de diferentes apresentações do quarteto, que permitem àqueles que não puderam estar na Europa em data e local corretos para apreciá-los ao vivo sentir um pouco do que esse encontro tem rendido nos palcos. O pessoal do Rest in Bits, por exemplo, disponibilizou uma boa versão do concerto que o grupo fez em Barcelona, em 22 de julho. Estão aí todos os temas do disco, para saciar os que têm deixado o CD no repeat nos últimos meses...



The Cherry ThingLive in Barcelona

*Neneh Cherry: voice
*Mats Gustafsson: baritone sax, electronics
*Ingebrigt Haker Flaten: double bass, electric bass
*Paal Nilssen-Love: drums


Recorded at Sala Apolo 2, Barcelona, Spain, 22 july 2012.

Um comentário:

Vitko disse...

Excellent post, thank you.