FREE THE JAZZ!!!

IMPROVISED MUSIC, JAZZ ANARCHY, NEW THING, INSTANT COMPOSITION, OUT JAZZ, ALEATORY MUSIC, MODERN FREE, FIRE MUSIC, NOISE, AVANT-GARDE JAZZ, INTUITIVE MUSIC, ACTION JAZZ, FREE IMPROVISATION, JAZZCORE, CREATIVE IMPROVISED MUSIC. FREE THE JAZZ!!!

*SOBRE (about us)...

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Leitura Obrigatória: "As Serious as Your Life"





As Serious As Your Life
*Autora: Valerie Wilmer
*296 pg.
*Editora: Serpent's Tail
*Idioma: Inglês



Jornalista e fotógrafa britânica, Valerie Wilmer vivenciou de perto os anos clássicos do free jazz. E não deixou passar em branco: registrou in loco seu entorno, que resultou neste As Serious as Your Life. Editado pela primeira vez em 1977,  o livro mostra sua particular interpretação da cena, destacando diferentes figuras que fizeram esse som nascer e se estabelecer como um gênero próprio e único.


A autora foi para Nova York em meados da década de 60, período em que trabalhava para a revista Melody Maker. Já atenta ao jazz e ao blues, se envolveu de forma crescente com o free, convivendo com muitas de suas figuras centrais.
Seu trabalho como fotógrafa estampa diferentes álbuns daquele período, como “Duo Exchange” (Rashied Ali e Frank Lowe) e “Dona Lee” (Anthony Braxton).

Apesar do subtítulo da primeira edição (“The Story of the New Jazz”), As Serious as Your Life não se propõe como uma obra de perfil historiográfico. O livro, que se desenha mais como uma crônica da época, expõe em cinco partes (subdivididas em dezesseis capítulos) diferentes ângulos de visão da autora sobre a cena que vivenciou. Sem ser didático, busca documentar os tempos heroicos do free jazz americano – mesmo a autora sendo britânica, a opção foi a de registrar apenas o que acontecia naquele momento nos EUA.

A parte I do livro, “Inovators and Inovations”, se concentra nas figuras-chave da cena, fazendo uma breve apresentação dos pioneiros Ornette Coleman, Coltrane, Sun Ra, Albert Ayler, Cecil Taylor e AACM. Essa é a parte que, vista hoje, se revela menos fundamental, dado o volume de informação que temos disponível sobre esses músicos. Na sequência vem “Who Are the New Musicians”, na qual a autora aborda músicos que estavam começando a se firmar naqueles anos 70. Aqui nos deparamos com alguns nomes mais cohecidos depois, como Frank Lowe e Rashied Ali, em meio a outros menos lembrados, como o percussionista Art Lewis. Interessante que um dos instrumentistas mais destacados pela autora seja o trompetista Earl Cross (1933-1987), que acabaria por ser um dos músicos daquela época que deixou menos registros, sendo praticamente esquecido nos dias atuais. A autora conta que ele, cansado de ser sideman (participou dos grupos de Noah Howard e Charles Tyler, por exemplo) e de ganhar a vida tocando muitas vezes em conjuntos de blues e R&B que não o interessavam esteticamente, Cross decidiu em meados da década de 70, já entrando na casa dos 40 anos, apostar tudo em sua própria arte. Para isso, montou um sexteto e caiu na estrada. Infelizmente, a aposta não foi bem sucedida. Restou apenas um registro de Cross com seu grupo, em um disco lançado em 77 dividido com o Tuba Trio de Sam Rivers...

Give the Drummer Some!” forma a terceira parte da obra e, como aponta o título, foca os bateristas que faziam o free jazz acontecer. Milford Graves, Sunny Murray, Ali, Andrew Cyrille e Ed Blackwell centralizam as 35 páginas nas quais a percussão assume papel protagonista.

Em “Woman’s Role”, na qual a autora fala das mulheres que participam da cena free, fica explícita a carência de figuras a se destacar naquela época – é notória a diferença na quantidade de mulheres fazendo a new music nos anos 60/70 e nos anos 2000. Valerie critica certo machismo que dominava o meio (vale destacar o título de um dos capítulos: “You sound good – for a woman!”): “More women are taking up instruments and really playing, but the prejudice against them continues”, escreve. Não devem ter faltado vozes femininas de então que acabaram desaparecendo sem deixar registro. Alice Coltrane, Barbara Donald, Linda Sharrock e Fontella Bass são algumas das artistas citadas, mas, curiosamente, a autora não se aprofunda no trabalho delas – só Alice Coltrane, com o material genial que havia produzido até aquele momento, já mereceria algumas páginas mais, sem dúvida.
The Conspiracy and Some Solutions” encerra o livro. Nesta parte são discutidos os esquemas encontrados pelos músicos para desenvolver e difundir sua arte, desde a criação de eventos e coletivos até as experiências em gravações e apresentações. É sintomático o título do capítulo final (“Does the Music Have a Future?”), espécie de epílogo interrogativo em torno da sobrevivência de uma arte radical que nunca alcançou, se diluiu ou se perdeu no mainstream. E permanece intensamente viva.

Fotos inéditas, que fazem parte do acervo profissional e pessoal de Valerie, ajudam a compor o belo quadro criado pela autora – dentre essas, a destacar: Braxton e Ornette jogando bilhar em 71; Rashied Ali e seu filho Khalil, ao lado da bateria desmontada; e Coltrane cortando o cabelo, em um salão londrino, nos anos 60. O livro também traz como apêndice notas biográficas de várias dezenas de músicos do free.

Desde que saiu em 1977, As Serious as Your Life recebeu algumas poucas edições, sendo a última de 1999, pelo selo britânico Serpent’s Tail (uma edição bem pobre, vale fisar, feita com papel jornal de baixa qualidade). Não sendo um livro nascido para ser best seller, As Serious as Your Life acabou por se tornar um clássico que alguns consideram uma raridade: na internet é possível encontrá-lo sendo vendido por até incríveis US$ 550!

5 comentários:

João Pedro Teixeira disse...

Grande dica!
Mas então, tu achas que vale mais a pena a edição de 77 do que a de 99?
Na amazon se encontra ambas com preços bem semelhantes(livros usados, é claro)

FABRICIO VIEIRA disse...

A vantagem da edição dos anos 90 é que, mesmo não tendo sido ampliada, ela foi revisada pela autora.

Anônimo disse...

Geralmente os livros ingleses são em papel jornal, é comum e normalmente quando em catálogo estes livros são baratos pois as pessoas procuram o conhecimento que estes livros trazem e não a qualidade do papel ou uma edição de luxo, se bem que alguns livros são editados em versões normais ( papel jornal),paperback ( capa mole ) ,capa dura ( hardcover) com papel de maior qualidade,mas no geral na Inglaterra os livros são baratos e quase todos neste ttipo de papel que vc descreveu,pra mim sem problema,o que vale é o conteúdo.
Não se trata de uma edição vagabunda e pobre,lá é assim,essa editora Serpent's tail constuma lançar edições como a que vc descreveu. O papel jornal fica amarelado logo e com manchas ,mas não 'cola' as páginas com a gordura dos dedos depois de manuseá-lo como os impressos em papel dito de qualidade.

FABRICIO VIEIRA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
FABRICIO VIEIRA disse...

Obrigado pelo comentário, anônimo. Mas reitero minha afirmação: infelizmente, uma edição pobre em papel jornal, "que fica amarelado logo e com manchas", para um livro de grande relevância documental para o free jazz. Mas, sim: o que importa em última instância são as informações.