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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Um ano intenso para Rodrigo Amado


Rodrigo Amado teve um primeiro semestre especial no que se refere a lançamentos. Seu Motion Trio editou dois álbuns que registram encontros, em estúdio (“The Freedom Principle”, em CD) e ao vivo (“Live in Lisbon”, em LP), com o grande trompetista Peter Evans – e o resultado é excepcional. Ele também colocou no mercado o disco de estreia de outro projeto seu, o “Wire Quartet”, no qual divide os créditos com Hernani Faustino, Manuel Mota e o sempre presente Gabriel Ferrandini.  Com esses três trabalhos, o saxofonista já poderia dar o ano por encerrado... mas vem mais por aí.
(por Fabricio Vieira)




O Motion Trio chega a seu quinto ano de existência mostrando uma imponente força criativa. Principal projeto do saxofonista português Rodrigo Amado, teve seu primeiro álbum, homônimo, lançado em 2009 e desde então tem sedimentado seu espaço na cena free, tocando em diferentes palcos e interagindo com variados parceiros. Ao lado do sax tenor de Amado, completam o grupo o violoncelista Miguel Mira e o baterista Gabriel Ferrandini. Logo em seu primeiro registro, o trio lisboeta já apresentava uma sedutora intimidade sonora, como se há muito os três instrumentistas tocassem juntos. Apesar desse equilíbrio fino, o Motion Trio nunca se fechou a parcerias com outros músicos. Em maio de 2011, por exemplo, se encontraram com o trombonista de Chicago Jeb Bishop, gestando dois intensos álbuns, “Burning Live at Jazz ao Centro” e “The Flame Alphabet”. Em março de 2013, foi a vez de o trompetista nova-iorquino Peter Evans se juntar ao trio, colaboração da qual saíram as duas sessões lançadas há pouco.  O primeiro encontro deles se deu no Teatro Maria Matos, em Lisboa, na noite do dia 16 de março de 2013.

Quando surgiu o convite para o concerto do Maria Matos, eu estava num período de audição intensa do 'Ghosts' (disco de Evans editado em 2011).Estava completamente fascinado com a linguagem do Peter e com a intensidade pouco habitual das improvisações.Naquele momento era o músico com o qual me imaginava mais frequentemente a colaborar, e decidi fazer-lhe o convite. Só o conhecemos na véspera do concerto em que foi gravado o “Live in Lisbon”.A empatia foi imediata e a música foi incrível. Ultrapassou todas as nossas expectativas. Devemos tocar de novo ao vivo, em breve. Tenho grande curiosidade de ver onde a música nos vai levar dessa vez.”, disse Amado ao FreeForm, FreeJazz.

Live in Lisbon foi editado em vinil, com apenas duas longas faixas, “Conflict is Intimacy” e “Music is the Music Language”. Quem desconhece o grupo não pode imaginar que Evans era apenas um convidado, que nunca havia tocado com eles, se mostrando integrado aos rumos do trio logo nos primeiros movimentos da apresentação. “Conflict is Intimacy” não demora para esquentar; lá pelos dois minutos, sax e trompete já estão em vivo diálogo com picos de elevada energia, impulsionados por Ferrandini e Mira, dando o tom que norteia o registro. Não se trata de high energy music de ponta a ponta, há também passagens mais contemplativas, mas a força sonora do quarteto é admirável. Evans não é do tipo que faz apenas “uma participação”; com ele, a integração aos parceiros, mesmo que sejam de ocasião, para criar algo novo e fresco, é garantida.


Dois dias depois do concerto, os instrumentistas voltaram a se reunir, dessa vez no Namouche Studios. Da sessão, foram extraídas três longas faixas, que formaram o álbum The Freedom Principle. A mesma energia criativa pode ser vista aqui, talvez apenas um pouco mais organizada, da forma que isso é possível em um contexto de improvisação livre. Em estúdio, há a possibilidade de desenvolver as ideias de forma mais íntima, sem a interação com o público, sempre um polo que pode tanto elevar quanto dragar a energia destilada pelos artistas. Podemos até nos deparar com pontos melodicamente mais bem arquitetados por Amado – como no centro da faixa-título –, tão característicos dele. Mas são a espontaneidade e a inventividade que estão na base dos dois encontros, fazendo dessas imperdíveis audições para os entusiastas da música livre. Fica a ansiosa questão: com quem será a próxima colaboração do Motion Trio?     

Em cada determinada fase, há uma série de músicos que sigo com atenção. São eles que me inspiram e que representam para mim a vitalidade do momento, do agora. E é com esses músicos que procuro estabelecer colaborações. Mas é um conjunto de músicos em permanente mutação, em constante movimento. Um pouco como a vida.O Motion Trio tem já gravado um novo álbum, em quinteto, com os convidados Steve Swell (trombone) e Rodrigo Pinheiro (piano).E ainda até ao final do ano iremos gravar de novo, apenas em trio, talvez com sax alto”, diz Amado.


Não bastasse esses dois excelentes discos do Motion Trio, Rodrigo Amado também acaba de lançar o álbum de estreia do “Wire Quartet”. Do Motion, está também presente Ferrandini na bateria, que divide a base rítmica com o baixo de Hernani Faustino (seu parceiro no Red Trio). A intimidade sonora de Amado, Ferrandini e Faustino faz com que Manuel Mota (guitarra), que complementa o conjunto, pareça às vezes até um convidado, preenchendo com seu dedilhado as trilhas abertas pelos outros instrumentistas. A sonoridade aqui é bastante distinta do Motion Trio, um universo improvisativo com outra espacialidade, na qual por vezes o sax tenor acaba por se desvelar como protagonista. O que mais Rodrigo Amado nos reserva até o fim do ano?     

Para o final do ano está prevista a edição do quarteto com o Joe McPhee, o Kent Kessler e o Chris Corsano, um álbum de estúdio que irá sair na NotTwo. O mês passado gravei de novo com o Chris Corsano, em duo. Essa é a gravação que está a absorver toda a minha atenção, neste momento.

  



Live in Lisbon
Motion Trio & Peter Evans
NoBusiness
*****







The Freedom Principle
Motion Trio & Peter Evans
NoBusiness
****1/2






Wire Quartet
Wire Quartet
Clean Feed
****













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*o autor:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura, tendo se especializado na obra do escritor português António Lobo Antunes. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; também foi correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e jazz para o Valor Econômico.

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