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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Free Jazz Underground: "Ofamfa" (Children of the Sun, 1971)




Entre as décadas de 1960 e 1970, diferentes coletivos turbinaram a cena da free music. Ao lado do mais conhecido AACM, o Black Artists' Group (BAG) foi um dos mais intensos centros responsáveis pela divulgação/criação da música livre, em meio a outras expressões artísticas realizadas no período. Do BAG, saíram alguns nomes vitais que ainda se mantêm em criativa atividade, como Oliver Lake e Julius Hemphill.




BAG foi um ponto de efervescência necessário fora dos centros Nova York/Chicago. Em muito inspirado na AACM, o BAG nasceu em St. Louis (Missouri) com a missão de difundir arte e cultura e gerar reflexão. Não se tratava apenas de música: teatro, poesia, dança, artes plásticas e cinema faziam parte do projeto. A gênese do BAG está ligada ao The Lake Art Quartet, grupo de Oliver Lake que fez sua estreia em 1967 no Circle Coffre House, evento-marco com forte repercussão na cena local. Logo Lake seria procurado por Julius Hemphill e, ao lado do dramaturgo Mallinke Elliott, que queria estabelecer uma companhia de teatro negro por ali, veio a ideia de criarem um coletivo artístico e cultural. Julho de 1968 seria uma data central nesse processo: foi quando músicos, atores e dançarinos se juntaram em torno do projeto de apresentação da peça “The Blacks”, de Jean Genet, que ocorreu no Loretto-Hilton Center (Webster College). O próximo passo seria arranjar um local para a sede do novo coletivo e recursos para sobreviverem. Alguns programas de financiamento cultural em atividade no período permitiram que a coisa andasse: Rockefeller Foundation, Missouri Council for the Arts e Monsanto eram alguns dos que repassavam verbas para projetos culturais, o que permitiu que o Black Artists' Group alugasse um antigo prédio desocupado na Washington Avenue, que se tornaria o quartel-general do grupo.
Aberto 24h por dia, o prédio do BAG mantinha atividades contínuas, com aulas, ensaios, apresentações e muita discussão. Na ala musical, além de Lake e Hemphill, estavam outros nomes futuramente conhecidos do free, como os trompetistas Floyd LeFlore e Baikida Carroll e o percussionista Charles “Bobo” Shaw. O poeta ‘Ajulé’ (Bruce Rutlin) era quem comandava as aulas de escrita criativa; a bailarina Georgia Collins, o centro de dança;  Emilio Cruz, as aulas de artes plásticas; e Mallinke Elliott, as atividades teatrais. O BAG refletia e se inspirava nas ondas nervosas daquela era, marcada pela luta dos direitos civis e embalada pelo discurso cada vez mais radical de vozes como Amiri Baraka e Frantz Fanon. Mas a  aventura do Black Artists' Group se dissolveria em pouco tempo. Em meados de 1972, com uma crescente dificuldade em conseguir recursos e o baixo interesse do público local que fez com que muitos integrantes do coletivo, especialmente os músicos, migrassem para Paris e depois se estabelecessem em Nova York o coletivo foi aos poucos definhando...  



(Oliver Lake; Joseph Bowie; Baikida Carroll; ‘Bobo’ Shaw; e LeFlore. 1973)
Muito da música produzida sob as franjas do BAG nasceu e morreu ali mesmo. Alguns poucos registros que sobreviveram vieram de pequenos selos criados por músicos envolvidos com a cena local. Um desses foi o “Universal Justice Records”, responsável pelas primeiras gravações do Human Arts Ensemble, um dos grupos formados em meio àquela ebulição de St. Louis. O selo "Mbari", de Hemphill, é outro fundamental testemunho daquele momento. Em 1971, sairia o que muitos consideram como o primeiro registro nascido de membros do BAG. Sob o nome Children of the Sun, o octeto que contava com Lake, 'Bobo' Shaw, LeFlore e Ajulé editou o álbum Ofamfa. Esse instigante registro tem em seu  núcleo um misto de spoken word e elementos do free jazz, tendo contado na hora da gravação com a participação de quatro dançarinas, o que ilustra bem o processo de criação coletiva que concentrava o foco dos envolvidos – no encarte do disco, estão creditadas as dançarinas Jahadi, Sandra Weaver, Carolyn Zachary e Etta Jackson. Pena que não há vídeos da produção. O álbum capta a atmosfera de amplas manifestações culturais do momento, período em que os sons do mundo (em destaque, a África) estavam demandando atenção geral. Aqui escapa-se do rótulo fácil de "free jazz", sendo que muito de seu frescor emana exatamente das poesias recitadas por Ajulé. Os créditos das oito faixas que compõem o disco se dividem entre composições de Lake e releituras de temas tradicionais, além dos poemas de Ajulé. Apesar de ser uma criação coletiva, de fato a força das ideias de Lake e Ajulé não passam despercebidas, formando importante pilar da obra. E em meio a longas passagens de spoken word (ouçam Sweet Street Song, por exemplo), há momentos mais focados na energia free, especialmente destilada pelos sopros, como em “Trane Songs”. Nunca reeditado, Ofamfa aparece por vezes à venda em sites na internet, custando até US$ 300 um exemplar. 




All of the brothers playing and writing on this record are members of the Black Artists' Group (BAG) which is based in St. Louis. The Black Artists' Group, a loose association of young Black men & women, is a potent/fertile creative force; a group which has contributed strong/fresh/inspirational creativity in the fields of Music/Writing/Dance/Drama. The Children of the Sun is one of the units operating under the BAG umbrella.” (Ajulé; liner notes)





Side A
1. Sweet Street Song
2. Uu-Twee
3. After Jeremiah'swed
4. Sounds of Scorpio
5. Trane Songs

Side B
1. Rent Man
2. A Little Tom is a Dangerous Thing
3. Echos (O Susanna)


*Oliver Lake: soprano, alto, flute, poems
*Ajulé: poet, arrangements, percussion
*Floyd LeFlore: trumpet, small instruments
*Ishac Rajab: trumpet
*Rashu Áten: conga, small instruments
*Arzinia Richardson: bass
*Vincent Terrell: cello
*Charles “Bobo” Shaw: drums

Release date: 1971






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Free Jazz Underground é uma série que busca resgatar e apresentar álbuns esquecidos, nunca reeditados, de artistas que, de alguma forma, contribuíram para o desenvolvimento da música livre.


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