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sexta-feira, 10 de julho de 2015

A cena registrada: documentando o free





A recente apresentação do documentário “Taking the Dog for a Walk”, no In-Edit, sobre a cena free impro britânica, mostra o quanto é relevante tal tipo de trabalho na missão de preservar e divulgar essa música. Nas últimas décadas, uma série de outros filmes foram realizados com o intuito de documentar o gênero e merecem ser (re)descobertos...

 

Não são poucos os filmes que existem feitos para retratar apenas um músico do free em especial: Albert Ayler, Ken Vandermark, Cecil Taylor, Peter Brotzmann, Sunny Murray, Ornette Coleman, David Murray, Steve Lacy, Milford Graves, todos já protagonizaram documentários sobre suas obras e vidas.
Mas há também uma boa variedade de filmes que visam mostrar a cena, desvendar o gênero, compreender o fascínio que a música livre desperta. Fizemos um apanhado de diferentes documentários que, nas últimas décadas, investigaram o universo do free jazz e da free improvisation, compondo um painel sobre essa música, com registros do início dos anos 1980 para cá. São filmes que, cada um à sua forma, buscam, por meio de entrevistas, documentos e gigs, uma maneira de preservar essa arte ainda tão ignorada fora de seu restrito núcleo. A seleção abaixo não esgota o tema, mas representa uma boa introdução a esse universo e merece ser conhecida pelos apreciadores da música livre.





IMAGINE THE SOUND
1981 (Films We Like)
Dir.: Ron Mann

Documentário pioneiro no registro do universo do free jazz, Imagine the Sound foca sua câmera em quatro destacadas figuras do gênero: Cecil Taylor, Archie Shepp, Paul Bley e Bill Dixon. Entre entrevistas e apresentações, o filme exibe um pouco da arte desses pioneiros – protagonistas do ápice do free jazz em meados dos anos 1960 – e ajuda a construir uma narrativa muito pouco documentada em vídeo até aquele momento. Os quatro músicos foram convidados a criar novas peças para o filme; Taylor, por exemplo, apresenta uma de suas intensas criações solistas, além de aparecer recitando seus intrigantes poemas, que havia passado a escrever de forma mais constante exatamente na época em que o filme foi realizado. Após longo período fora de catálogo, foi editado em DVD em 2007.


(Cecil Taylor, solo, 1981. From ‘Imagine the Sound’)






RISING TONES CROSS
1985 (FilmPals)
Dir.: Ebba Jahn

O pano de fundo deste filme é o Sound Unity Festival – precursor do icônico Vision Festival, organizado por William Parker e Patricia Nicholson –, realizado em Nova York em 1984, que reuniu grandes nomes do free europeu e dos EUA (Peter Brotzmann, Rashied Ali, Jemeel Moondoc, Don Cherry, Irène Schweizer, Dennis Charles, Marilyn Crispell, Charles Tyler, Roy Campbell Jr., David S. Ware, Frank Wright, Jeane Lee, Billy Bang ...). Mas quem polariza mesmo o documentário são duas figuras: o baixista alemão Peter Kowald (1944-2001) e o saxofonista Charles Gayle. São eles que concentram as entrevistas e aparecem em ação juntos em diferentes contextos. Com Kowald e Gayle, o diretor Ebba Jahn demarca dois extremos: o músico europeu já reconhecido e respeitado no universo do free, que passava uma temporada nos EUA para se aprofundar nas raízes do gênero; e o saxofonista outsider norte-americano, à margem dentro da própria marginalizada cena – Gayle, então com 45 anos, nunca tinha lançado um disco ou tocado fora de sua região. Vale notar que esse é o primeiro registro oficial de Gayle, que ajudou a levar a música do homeless  para além de seu entorno.


(Charles Gayle, Peter Kowald, Ali. 1984. From ‘Rising Tones Cross’)






ON THE EDGE: Improvisation in Music
1992
Dir.: Jeremy Marr


Escrito e narrado pelo guitarrista Derek Bailey, este documentário sobre a improvisação foi produzido para a TV britânica. Dividido em quatro partes de cerca de uma hora cada, foi apresentado pelo Channel 4 no começo de 92. Partindo do livro “Improvisation: Its Nature and Practice”, do próprio Bailey, o documentário aborda a improvisação em suas mais variadas formas, tanto na música ocidental quanto oriental. No longo panorama apresentado, podemos assistir em ação, tocando e expondo suas ideias, alguns dos expoentes do free jazz/free impro: Butch Morris, Steve Noble, George Lewis, Alex Ward, Max Roach, Douglas Ewart, John Zorn... Mas a viagem é bem mais ampla que o mundo do free; encontramos músicos das mais variadas origens e perspectivas lidando com a liberdade criacional e interpretativa, sem preconceitos, apenas música viva.


('On the Edge' - part III)






INSIDE OUT IN THE OPEN
2001/2008 (ESP)
Dir.: Alan Roth

Com o subtítulo “An Expressionist Journey into the World Known as Free Jazz”, o diretor Alan Routh não deixa dúvidas sobre sua intenção ao realizar este documentário. E para essa jornada no mundo do free jazz, ele convocou figuras destacadas dos tempos primeiros do gênero: Joseph Jarman, Alan Silva, Burton Greene, Baikida Carroll, Roswell Rud e os já falecidos Marion Brown (1931-2010) e John Tchicai (1936-2012). Há também a participação de gerações mais novas no filme, dentre os quais Matthew Shipp, Susie Ibarra e William Parker. Alternando depoimentos e passagens de concertos (a maioria captado nos anos 90), Inside Out in the Open busca falar do free jazz de ontem e de hoje, num panorama bem rápido (afinal, são cinco décadas de gênero para cerca de 60 minutos de filme), mas envolvente. Uma boa introdução a essa música vital.







NOISY PEOPLE
2007 (Poikus Film)
Dir.: Tim Perkis

Interessante documentário que busca retratar a improvisação livre destacando nomes que não estão entre as estrelas do gênero, como é mais comum ocorrer nesse tipo de filme. Focado na Bay Area, em San Francisco, Tim Perkis destaca sete artistas locais que, apesar de já terem razoável trajetória artística, são menos lembrados e reconhecidos, como os baixistas Damon Smith e George Cremasch, o trompetista Tom Djll e o saxofonista Dan Plonsey. Essa proposta de dar voz a figuras que costumam aparecer menos oferece um frescor extra ao documentário. Há algumas rápidas aparições ilustres, como a de Anthony Braxton – na parte dedicada a Plonsey, que já gravou com o mestre –, mas o foco está totalmente nos outros instrumentistas. Um filme sobre quem ajuda a fermentar a cena, mesmo que de forma mais discreta.







AMPLIFIED GESTURE
2009
Dir.: Phil Hopkins

Seguindo a linha do que o subtítulo do documentário promete (“An Introduction to Free Improvisation: Practicioners and their Philosophy”), o diretor Phil Hopkins entrevistou nomes destacados da improvisação livre para compor esse painel. Preferindo se focar no que cada músico ouvido tinha a dizer – deixando de lado a manjada fórmula de mostrar partes de shows entre as entrevistas –, Hopkins apresenta uma variedade de perspectivas no fazer improvisativo. Passam por sua câmera algumas autoridades no assunto: Evan Parker, Eddie Prévost, Otomo Yoshihide, John Butcher, Keith Rowe, John Tilbury, dentre outros. Um documentário que nos ajuda a pensar o quanto a improvisação livre pode ser (e é) complexa: de gratuito, não há nada aqui.









FREE THE JAZZ
2014 (KVB)
Dir.: Czaban Gyorgy

Este filme realizado na Hungria se estrutura de forma mais esquemática, intercalando entrevistas e trechos de shows. O diretor Czaban Gyorgy aproveitou a passagem de alguns dos nomes mais fortes da cena contemporânea pelo seu país (Matthew Shipp, Mats Gustafsson, Ken Vandermark, Paal Nilssen-Love, Joe McPhee...) para colher o material que utilizou no documentário. Peter Brotzmann é quem ganha destaque um pouco maior, abrindo e encerrando o filme. Interessante vê-lo falando o que pensa sobre o free e se colocando como “apenas um músico de jazz”. Em sua fala final, diz Brotz: “Penso que o conceito de free jazz teve sentido por um curto período nos anos 60... Usar o termo hoje pode gerar mal entendidos. Neste mundo, nada é ‘free’. E nas últimas décadas, desenvolvemos formas e estruturas nas quais a liberdade tem uma diferente pegada do que era feito nos anos 60”.









FIRE MUSIC
2015 [?]
Dir.: Tom Surgal

Ainda em produção, Fire Music promote apresentar “A History of the Free Jazz Revolution”. Com produção executiva de Thurston Moore e Nels Cline, esse documentário se arquiteta a partir de 25 entrevistas realizadas com músicos do meio (Bobby Bradford, Burton Greene, John Tchicai, Evan Parker e Oliver Lake são alguns dos convocados) e imagens de shows (já gravaram apresentações de Brotzmann/Bennink, Marshall Allen, Vandermark/Lytton, Evan Parker e outros mais). O projeto está em andamento há quatro anos, mas ainda necessita de recursos para ser finalizado. Os responsáveis chegaram a abrir uma campanha no Kickstarter para arrecadar fundos, mas não está claro em que pé isso está. Aguardemos.









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*o autor:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura, tendo se especializado na obra do escritor António Lobo Antunes. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; também foi correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e música para o jornal Valor Econômico

Um comentário:

João Pedro Teixeira disse...

Baita! Tem também o German Blues, curta sobre o Brötze (https://www.youtube.com/watch?v=syN3PFm_K80.