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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A impactante estreia do SLD Trio





O trio de piano-baixo-bateria é um dos formatos clássicos e mais explorados no universo jazzístico. Dessa forma, sempre impressiona quando surgem propostas novas a partir de tal formação, como é o caso de Anfitrión, estreia do trio argentino SLD.



Formado em meados de 2013 em Buenos Aires, o SLD Trío apresenta três nomes bem ativos na cena contemporânea argentina. No piano, Paula Shocron ; no baixo, Germán Lamonega ; e na bateria, Pablo Díaz – "SLD" vem das iniciais dos sobrenomes dos músicos. A proposta do grupo, segundo Díaz, é a de trabalhar com diferentes abordagens criativas sempre utilizando a improvisação livre como centro de desenvolvimento para a obra. A experiência dos envolvidos – apesar de relativamente jovens, Shocron e Díaz têm já várias gravações no currículo – faz com que essa criação se revele bastante segura e precisa: tatear novos territórios, mas sabendo como melhor explorar cada rumo escolhido.

O som do trio se mostra bastante uno, sem protagonistas, com os três instrumentistas sendo vitais para a gestação de cada uma das 11 peças apresentadas. Mesmo assim, inevitável não prestar atenção redobrada a Paula Shocron. E não apenas por ela ser uma notável pianista. Mas pelo momento que vive em sua trajetória. Quem conhece seu trabalho, sabe que ela tem uma veia jazzística bastante acentuada, exibida desde seu primeiro trabalho, o intimista álbum solo “La Voz que te Lleva”, de 2004. Entre seus vários registros, não são poucos os trios, como “Serenade in Blue”, “Our Delight” e “Homenaje”, mas que testemunham um lado com traços pós-bop mais acentuados. Assim, vê-la envolvida com a improvisação livre – que tem marcado suas investidas mais recentes, como no projeto “Imuda”, que criou ao lado da dançarina Laura Monge para explorar possibilidades improvisativas e de interação entre artes, sempre agregando novos parceiros – é bastante empolgante, pois ela chega nesse extremo com uma bagagem musical realmente sólida: nada é gratuito em sua arte.
Em recente entrevista ao jornal La Nación, ela disse: “Querría que la música fuera cada vez más inclusiva, que no se limitara a un estilo, que no calzara en una etiqueta. Somos un montón de perspectivas todas juntas. Si sacamos las casillas, todas esas perspectivas pueden convivir e interactuar”. 
E é esse o foco que norteia “Anfitrión”.



O álbum traz 11 faixas, improvisos coletivos (exceção a “Firuletes”, baseada em composição de Díaz) que formam um todo, sendo que a obra poderia ser encarada como uma suíte dividida em várias partes, com cada uma derivando e complementando a outra. Gravado em 26 de setembro de 2014, Anfitrión inicia e termina de modo mais contido, como se descortinasse – e depois fechasse – esse particular palco (o que se expõe nele, melhor dizendo) aos nossos sentidos. No centro disso, ondulações de lirismo, tensão e liberdade sonora, com o trio destilando momentos por vezes inquietantes, como o solo de piano de “La Novia”, que domina grande parte da peça, num crescendo perturbador que parece impossível de ser concluído e nos arrasta de maneira inevitável. Na sequência, somos apresentados a um tom distinto do trio, sendo “24 horas” uma faixa marcada por certa dança ritualística conduzida pelo baixo bailante de Lamonega e o pulso de Díaz, por entre os quais surge um toque repetitivo e inebriante do piano. Essa faixa soa como uma longa introdução a “Embudos”, em que somos surpreendidos pela voz de Shocron, que surge com um poema-improviso, jogo de palavras ao acaso (... magnitud, mente, novedad, entrecruces, experimento... lluvias, ansiedad, trabajo...) que rasgam as linhas traçadas por baixo (embalado pelo arco)  e percussão, num processo encantatório – interessante notar que Shocron, além de explorar técnicas expandidas ao piano, tem testado possibilidades com voz e percussão.



Apesar da unidade do álbum, “Embudos” soa como o fim de uma primeira parte (poderia encerrar o lado A de um vinil). A partir daí, começa uma suíte (ou uma subsuíte, se pensarmos em Anfitrión como um todo uno), chamada “Retribuciones”, que domina o espaço entre as faixas seis e dez, sendo que cada um desses temas é nomeado por uma sigla, que se revelam homenagens a músicos importantes para o trio, como “R.C.” (Roy Campbell), “W.P.” (William Parker) e “D.J.” (Darius Jones).  Desse conjunto, “W.P.” é a mais explosiva. Abrindo com uma densa linha de baixo, logo é sacudida por uma fragmentada melodia circular do piano, que ganha cada vez mais intensidade com a bateria pulsando de forma quebradiça, em um processo que atinge seu máximo lá próximo aos seis minutos, quando o teclado vai saindo de cena e Díaz contendo a batida, preparando a entrada de “R.M.”, que marca uma virada brusca, muito por Shocron passar a destilar sons como que extraídos de uma harpa, levando os sentidos a outras searas.       

Anfitrión é uma obra surpreendente e bem realizada, fruto de uma feliz comunhão discursiva e expressiva entre os músicos, que nos convidam a ouvi-la sempre uma vez mais, em busca de algo que talvez ainda não tenhamos captado.
Completando o projeto, o encarte tem texto de Steve Dalachinsky, poeta de Nova York conhecido por suas parcerias com músicos do free, e a capa traz foto de Peter Gannushkin, hoje o principal fotógrafo da cena.




ANFITRIÓN  *****
SLD Trío
Independente




(Photo: Catu Hardoy)



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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado na área literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e música para o Valor Econômico. Também colabora com o site português Jazz.pt. É autor das liner notes dos álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)


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