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quarta-feira, 9 de março de 2016

Omaggio a Naná Vasconcelos (1944-2016)





O grande mestre da percussão se foi.
Naná Vasconcelos morreu na manhã de quarta-feira, em sua Recife, no hospital onde estava internado, câncer de pulmão.
O mundo fica mais tristemente quieto.




Pra mim, tudo é música. O primeiro instrumento é a voz, o melhor é o corpo e o resto é consequência disso. Então, a música para mim está em tudo. Silêncio é a música mais difícil de fazer por que o silêncio é um estado de espírito. (Naná Vasconcelos*)




Em cerca de cinco décadas de música, Juvenal de Holanda ‘Naná’ Vasconcelos criou um universo sonoro único. Nascido no Recife em 2 de agosto de 1944, Naná Vasconcelos foi descoberto pelo mundo nos anos 1970 e se estabeleceu como um dos artistas mais inventivos desde sempre. Mais do que apenas um importante representante da música brasileira, Naná tem seu nome lá fora muito ligado ao universo do jazz, dada não só as muitas parcerias que desenvolveu com jazzistas, mas também pela criatividade e liberdade infinitas com as quais gestou sua arte. A partir de sua vivência com diferentes ritmos populares e instrumentos percussivos – a destacar seu parceiro máximo, o berimbau –, ele se abriu a diálogos infindáveis com sons de todos os cantos, trafegando com genialidade por uma via sonora universal.
Com mais de duas dezenas de discos lançados como líder e colíder – e provavelmente mais de duas centenas de títulos como sideman ou colaborador –, por selos como ECM, Soul Note e Tzadik, o  trabalho de Naná Vasconcelos é associado, em sites internacionais de informação de referência como AllMusic e Discogs, majoritariamente com o gênero jazz, sendo muito ligado a estilos como “latin jazz”, “world fusion” e “contemporary jazz”, e algumas vezes até com a “free improvisation” – é possível que ele achasse graça disso, pois não se considerava um jazzista; em uma entrevista ao site Noize, ele disse: “Os instrumentistas daqui [do Brasil] ficam querendo tocar jazz. Querem ser imitação de americano. Eu acho horrível”. No clássico O Livro do Jazz, de Joachim-Ernst Berendt, Naná é citado em diferentes oportunidades. Lá, lemos: “Naná é um mestre incomparável do berimbau. Desse instrumento tão simples (...), Naná conseguiu extrair uma riqueza fascinante de possibilidades expressivas”. Vale lembrar também que a cultuada revista norte-americana de jazz DownBeat, em sua eleição anual de “melhores músicos”, premiou Naná Vasconcelos oito vezes consecutivas como melhor percussionista, entre 1984 e 1991.


A ligação de Vasconcelos com o universo jazzístico foi, de fato, mais acentuada entre os anos 70 e meados dos 90. E não foi pouco o que aconteceu aí: ele tocou e dividiu parcerias com muita gente desse universo, em suas variadas vertentes. Essa história começa em um período em que estava vivendo no Rio de Janeiro, ainda com seus vinte e poucos anos. Foi quando o saxofonista argentino Gato Barbieri, que já se destacava na cena free internacional, o convidou para tocar com ele nos EUA e na Europa. Era 1970 e Naná embarcou com Barbieri em uma viagem que se revelaria fundamental para apresentar sua inventividade única ao mundo. Tocou e gravou com o saxofonista nos meses seguintes, adentrando o universo jazzístico. Conheceria na época o já famoso trompetista Don Cherry, futuro importante parceiro. É nesse período ainda que sua discografia vai surgindo, sendo um marco a gravação de “Africadeus”, seu primeiro álbum, editado na Europa em 1972.

Fixando residência em Paris, onde viveria por cinco anos até se mudar para Nova York, o percussionista participaria naquela década de discos de diferentes músicos ligados às linhas mais inventivas do jazz de então, como o citado Barbieri, em “Fenix” (71) e “El Pampero” (72); Leon Thomas, em “Gold Sunrise on Magic Mountain” (71); Rolf Kuhn, em “The Day After” (72); Don Cherry, com “Organic Music Society” (72); Baikida Caroll, em “Orange Fish Tears” (74); Joachim Kuhn, “Hip Elegy” (76); Perry Robinson, com “Kundalini” (78); e Dwight Andrews, com “Mmotia, The Little People” (79). Mais à frente, levaria seu arsenal percussivo a álbuns de Chico Freeman, Pat Metheny, Jan Garbarek, John Zorn, Pierre Favre, Ivo Perelman, Terumasa Hino, Ron Carter, Jean-Luc Ponty, Jacques Thollot, Bob Moses, Mark Helias, Antonello Salis, John Lurie, Andy Sheppard, Ralph Towner, Jack DeJohnette, além de gravações com artistas destacados em outras searas, como B.B. King, Paul Simon e Talking Heads. Das também não poucas parcerias com músicos brasileiros – como Milton Nascimento e Itamar Assunção –, merece atenção à parte os trabalhos feitos ao lado de Egberto Gismonti, notadamente o clássico “Dança das Cabeças” (77) – que eles reinterpretaram no Sesc em 2011. 
Especial destaque na trajetória de Naná é o projeto Codona. Trio formado em 1978, o Codona trazia Naná Vasconcelos ao lado de Don Cherry e Colin Walcott – da primeira sílaba de seus nomes vinha “Codona”. O trio acabou em 1984, quando Walcott morreu, e deixou três saborosos registros, editados pelo selo ECM, em que demonstram um world jazz em que fundem elementos africanos, orientais e jazzísticos, em uma música por vezes contemplativa e sempre encantatória.
Atento a novas possibilidades criativas, sempre, mas sem perder suas marcas fundamentais – o berimbau como instrumento primeiro, o jogo com a voz, a exploração ilimitada do universo percussivo –, Naná não negou nem investidas por vias eletrônicas. Nos anos 1980, testou possibilidades com elementos eletrônicos e passou a integrar uma drum machine a seu repertório percussivo, gestando os dançantes “Bush Dance” (86) e “Rain Dance” (89). Mais recentemente, voltaria a utilizar elementos eletrônicos no álbum “Minha Lôa” (2001). Mas isso sem descaracterizar sua obra, cujos discos nunca deixaram de soar como um trabalho do Naná.




Em sua discografia como líder, há títulos realmente geniais e ao menos três obrigatórios:
Africadeus” (72), “Saudades” (80) e “Storytelling/ Contando Histórias” (95).

Africadeus foi gravado em seus primeiros tempos de Paris, no começo dos anos 70, e marca o início de sua discografia. O álbum, editado pelo selo francês Saravah em 73, traz três faixas em que algumas das principais marcas de sua obra já estão presentes. O lado A do LP é composto apenas pela extensa faixa-título, focada no berimbau, onde Naná coloca este instrumento como protagonista de uma forma nunca antes feita. No lado B, dois temas, “Abôios” e “Seleção de Folclore”, em que o artista trabalha percussão e voz, revisitando e recriando ritmos (cirandas, samba de roda) e cantigas populares.
Já bem conhecido na cena europeia, Naná entraria em estúdio em março de 1979 para gravar Saudades para o mítico selo alemão ECM. Esse trabalho, que traz cinco temas, também abre com uma longa peça voltada a seu instrumento favorito. “O Berimbau” é uma incrível criação em que os solos do instrumento dividem a cena com um conjunto de cordas, executadas por integrantes da Radio Symphony Orchestra Stuttgart – como alguns críticos definiram: trata-se praticamente de um concerto para berimbau. Destaque do álbum também é “Vozes (Saudades)”, em que vemos em alta criatividade suas investigações com a voz, em um jogo vocálico em que brinca com a silabação, explorando o eco e a espacialização. Outra peça muito exemplar de seu trabalho é “Ondas (Na óhlos de Petronila)” – assim mesmo, com a grafia errada de nos olhos –, com percussão e voz em alta e crescente ebulição. Há ainda um belo duo com Gismonti, “Cego Aderaldo”.
Nos anos 90, Naná gestou outra preciosidade. Gravado entre 92 e 93 em Nova York (uma peça foi registrada no Recife, ao lado de “street musicians”, como diz o encarte), Storytelling saiu em 95 em uma coleção da EMI com músicos/as do mundo – teve uma edição nacional, sob o título “Contando Histórias”. Esse álbum traz Naná trabalhando a voz/canto de uma forma distinta da que muito explorou antes. Com pequenas frases que se repetem, ele arquiteta as músicas – nenhuma é puramente instrumental – alcançando um outro tipo de resultado. Em “Uma tarde no Norte”, por exemplo, temos o mote “o meu chapéu está no alto céu/mestre Domingo cadê seu chapéu”; em “Fui Fuio (na praça)”, temos o “d’aqui prá lá, de lá prá cá” girando nos ouvidos. Há ainda um de seus temas mais conhecidos, “Vento Chamando Vento”, em que o nome da peça é repetido ciclicamente, como num chamado à espera de uma resposta que não vem.   


O último registro de Naná Vasconcelos foi 4 Elementos, álbum lançado em 2013. Apesar de doente, o músico mantinha uma agenda ativa; deveria se apresentar em SP no próximo fim de semana, com o grupo Barbatuques. Para abril, tinha agendada uma pequena turnê pela Ásia, passando por Japão, China e Coreia do Sul, uma vez mais em duo com Gismonti.



Muita gente não conhece o que eu faço. Gente de diferentes mundos sociais está começando a se interessar por discos meus. Estou conhecendo muitos jovens que não me conheciam, que nasceram quando saí do Brasil. Muito interessante...”, disse ao site Clube de Jazz.
Que a música de Naná Vasconcelos continue assim, sendo descoberta, encantando, deslumbrando os sentidos daqueles que a alcançam.



(*em entrevista ao site La Parola)





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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado na área literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e jazz para o Valor Econômico. Também colabora com o site português Jazz.pt. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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