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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Ivo Perelman: safra 2016 (parte 2)




CRÍTICAs  Para encerrar a safra 2016, ano em que editou nada menos que 11 novos títulos, Ivo Perelman lança uma coleção de 6 discos, todos em trio, pelo selo Leo Records. Em meados de 2017, chega uma nova fornada.  





Por Fabricio Vieira

O trio é um dos formatos favoritos de Ivo Perelman. Na sua discografia, que se expande por cerca de sete dezenas de títulos, conta-se agora com nada menos que 28 álbuns gravados em trio, com diversos parceiros em períodos variados. Assim, nada melhor do que uma coleção de novos trios para conhecer em sua plenitude a fase atual do saxofonista.
Editado neste segundo semestre de 2016, The Art of the Improv Trio reúne seis volumes, seis novos títulos nos quais Perelman se une a seus mais constantes parceiros dos últimos anos, em uma exploração linguística que condensa o “ciclo Brooklyn” (leia sobre aqui) e aponta novas possibilidades estéticas. Registrados em um período de um ano, entre julho de 2015 e julho de 2016, todos no Parkwest Studios, no Brooklyn novaiorquino (exceção do Vol.6, que é ao vivo), os seis álbuns representam um panorama atualíssimo da criação de Perelman, mostrando ângulos amplos de sua arte improvisatória, indo do lírico a pinceladas de energy music, de ideias múltiplas de expressões mínimas, concentradíssimas (no Vol.2, por exemplo, há uma peça de 56 segundos), a desenvolvimentos mais dilatados, de amplitudes investigativas totais (como a peça ao vivo do Vol.6, com seus 42 minutos ininterruptos). 
Sempre ao sax tenor, Perelman é acompanhado nos discos por:

Vol.1: Karl Berger/ Gerald Cleaver
Vol.2: Mat Maneri/ Whit Dickey
Vol.3: Matthew Shipp/ Gerald Cleaver
Vol.4: William Parker/ Gerald Cleaver
Vol.5: Joe Morris/ Gerald Cleaver
Vol.6: Joe Morris/ Gerald Cleaver

(ou seja, dos participantes mais constantes do efervescente “ciclo Brooklyn”, nota-se apenas a ausência do baixista Michael Bisio)
Se as parcerias mudam a cada disco (Morris está em dois volumes, mas toca guitarra em um e baixo no outro), o núcleo instrumental é mais repetido. Nos Vol. 1 e 3, temos sax/piano/bateria; e nos Vol. 4 e 5, sax/baixo/bateria – mas é claro que as possibilidades exploradas são mutáveis, afinal, os músicos envolvidos são bastante distintos em suas perspectivas estéticas. Interessante notar que essa música toda se constrói em meio a pelo menos duas constantes: o sax tenor e a bateria, com um terceiro instrumento alterando a relação entre essas duas pontas. 
Não teria sido má ideia editar os seis discos em um box, o que reforçaria ainda mais a coesão do material lançado. Além do título em comum, os álbuns apresentam outros pontos que mantêm um esquema de similaridade/unidade; em especial, cada volume traz dois textos nos encartes, um assinado pelo crítico Neil Tesser (onipresente na atual fase) e outro por um dos músicos envolvidos na gravação. Infelizmente, talvez por uma recusa de Gerald Cleaver, no Vol.6 o texto extra pertence a alguém de fora (Filipe Freitas), o que acaba por quebrar a harmonia narrativa que congrega as outras liner notes.

Quem acompanha a discografia de Perelman notará que aqui há encontros inéditos e revisitações a possibilidades antes testadas. O Vol.1, por exemplo, junta Perelman ao pianista e vibrafonista alemão Karl Berger e ao baterista Gerald Cleaver pela primeira vez. Como ocorre muitas vezes entre grandes free improvisers, essa reunião é bastante equilibrada, está longe de parecer uma “primeira tentativa” e consegue o êxito de gestar provavelmente a mais bela peça de todo o conjunto apresentado aqui, a encantadora “Part 3”. O Vol.2 também traz outra formação inédita, com o tenorista acompanhado pela viola de Mat Maneri e pela percussão de Whit Dickey (por algum motivo, esta é a única participação de Dickey, que muito tem tocado com o saxofonista nesta década, na coleção). O Vol.3 tem o mesmo grupo que gravou “The Foreign Legion”. Mas os quatro anos que separam um álbum do outro mostra o quanto o som deles mudou nesse tempo – além do vasto material produzido desde então pela associação entre Matthew Shipp e Perelman, parceria esta que conduzirá o novo pacote de álbuns programado para sair em poucos meses.
Já o Vol.4 é outro com agrupamento não testado antes, com o lendário baixista William Parker e Cleaver nas baquetas. Perelman tocou neste formato de sax-baixo-bateria com Parker nos idos anos 90, com Rashied Ali como terceiro nome, no que se transformou em alguns de seus mais importantes discos (“Sad Life” e “Live”). Se aqui não há a mesma energy music constante de lá, é fato que Parker traz outras possibilidades expressivas em relação aos outros baixistas com que Perelman tem trabalhado nesta fase. Não é à toa que o resultado do encontro seja destilado em apenas três temas (ou um tema em três partes, com 5-40-5 minutos, respectivamente), com as longas formas características do free impro, com o desenvolvimento da música ocorrendo de modo mais dilatado, com um núcleo bastante extenso de divagações discursivas sendo o referencial principal da música criada. Como diz Parker no encarte: “The music we did and continue to do is always transcending itself unfolding in layers of sound, space and colors. We are actually painting with sound and enabling the concept of vision to live”. 

O conjunto fecha com duas possibilidades antes testadas com Joe Morris e Cleaver: no Vol.5, temos o mesmo conjunto de sax-guitarra-bateria que antes gestou “Living Jelly” (2012). Já no Vol.6, o trio se reestrutura com Morris trocando a guitarra pelo baixo acústico, a mesma formação que registrou “Family Ties” (também 2012). É curioso que Morris, um dos maiores nomes da guitarra contemporânea, tenha gravado tantos discos usando baixo ao lado de Perelman. E o mais interessante é que alguns dos melhores encontros desses dois músicos ocorram exatamente quando ele está com baixo (como em “One” e “The Hour of the Star”). O mesmo parece se repetir aqui, com o Vol.6 brilhando em meio a seus pares. Pesa para esse destaque, sem dúvida, o fato de ser um disco ao vivo. Por algum motivo, Perelman deve ser, dentre os grandes free improvisers, um dos que menos tem registros ao vivo. Nas sete dezenas de gravações que participou, conta-se nos dedos de uma mão as que foram captadas ao vivo, no calor do palco, à frente do público. E, como sabemos, nenhum músico soa igual no palco e em estúdio. Como no marcante “Live”, registrado em 1996, temos aqui apenas uma peça (mais um pequeno bis), 42 minutos de música ininterrupta captada exatos 20 anos depois, mais precisamente em julho de 2016, no palco do The Manhattan In. Se a apresentação no dia foi mais extensa que o editado, é uma pena, porque a música soa intensa e profunda como só acontece em algumas ocasiões, com o trio desenvolvendo as ideias sem pressa, em sua amplitude máxima. Perelman chega até, por vezes, à sua voz mais enérgica, o que tem sido menos usual nesta sua fase atual, marcada por um viés mais lírico. Inevitável o apelo: mais discos ao vivo, Mr. Perelman.







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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e música para o Valor Econômico. Também colabora com a revista online portuguesa Jazz.pt.
É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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