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domingo, 12 de fevereiro de 2017

Sons da Espanha






Em destaque, músicos e músicas vindos da Espanha.
Lançamentos de artistas dessa cena que se mostra cada vez mais viva.




Por Fabricio Vieira

A free music produzida na Espanha talvez não tenha na cena internacional o mesmo destaque que a feita no vizinho Portugal. Mas artistas espanhóis têm oferecido muitos sons de alta inventividade, nos mais variados instrumentos e perspectivas. Pelo que nos chega, parece que Barcelona ocupa espaço de destaque para a música criativa do país –mas, claro, há manifestações em outros cantos (Madri, Málaga, Sevilha)... Para se iniciar no universo espanhol, há alguns selos independentes com boas amostras do que têm sido feito por lá, como Discordian Records e UnderPool (de Barcelona) e  Sentencia Records (de Sevilha). Selecionamos alguns discos lançados nos últimos tempos por/com músicos espanhóis para ajudar a trazer alguma luz a essa viva cena pouco conhecida por aqui... 




Before the Silence  ****(*)
Cirera/ Fernández/ Faustino/ Ferrandini
NoBusiness Records

Neste empolgante encontro Espanha/Portugal, temos de um lado os espanhóis Albert Cirera (saxes tenor e soprano) e Agustí Fernández (piano, o mais conhecido nome do free de seu país) e do outro Hernâni Faustino (baixo) e Gabriel Ferrandini (bateria) – todos músicos experimentados e representativos do que de melhor tem sido feito na Europa. O catalão Cirera, hoje vivendo em Lisboa, foi o responsável por unir o quarteto. Captada no Jazz Cava de Vic (Barcelona), em maio de 2015, a apresentação traz três extensos temas e uma coda.  Música densa, com improvisação de alta intensidade criacional, gestada por um quarteto que se reuniu pela primeira vez ali. Às ousadas linhas desenvolvidas por Faustino e Ferrandini (parceiros de longa da data e do Red Trio), Cirera adiciona uma voz que denota certa linhagem free jazzística, e Fernández passeia com seu piano sempre pulsantemente inventivo. “Before” abre o registro com vagar, até Cirera esquentar as coisas com um vivo solo ao sax soprano (substituído pelo tenor nos minutos finais da peça). Em “The” temos o melhor encontro piano-sax: após um breve solo de cerca de um minuto de Fernández, o tenor surge de forma arrebatadora, uivando e sendo empurrado pelas teclas tensíssimas – provavelmente o ponto máximo do concerto. A apresentação encerra com a breve “Coda”, um tom abaixo, mais jazzística e, comparada ao que veio antes, algo suave, um desfecho que desemboca em alguns segundos de silêncio, até surgirem os aplausos.





Suite Salada ****
Albert Cirera & Tres Tambors
UnderPool
Segundo registro desse quarteto comandado por Albert Cirera, Suite Salada traz o saxofonista ao lado de Marco Mezquida (piano), Mark Lohikari (baixo) e Oscar Domenech (bateria) explorando seis novos temas. Provavelmente o projeto de teor mais jazzístico de Cirera, o álbum abre com “S’Auba”, em tonalidade world jazz, com flauta e percussão nos remetendo à cena dos anos 70. “Tantra” vem em seguida, com um piano e lampejos percussivos que remetem ao melhor do “Quartet” setentista de Keith Jarrett, mas com uma linguagem bastante pessoal, com o sax de Cirera em modo mais melódico que o apresentado em outros projetos.  O jovem pianista Mezquida é um dos destaques do álbum, e ele tem em “5 Anys” o espaço mais generoso para mostrar sua versatilidade. Quem conhece a face mais arisca, free, de Cirera, irá encontrá-la em “Jaleo”, a mais breve e também a mais enérgica do conjunto. O outro extremo está no encerramento de Suite Salada, que fecha em modo mais lírico, com a melancólica balada “Talis”.  




  



Cap de Toro   ****(*)
Free Art Ensemble
Discordian Records
Free Art Ensemble é uma band que reúne alguns dos nomes fortes da cena de Barcelona, sendo arquitetada com vários sopros, baixo e percussão. O FAE traz os trompetes de Iván González, Julián Sánchez e Pol Padrós (que formam o Free Art Three); os saxes (alto, tenor, barítono, soprano) de Albert Cirera, Oriol Fontclara e Tom Chant; os baixos (elétrico e acústico) de Alex Reviriego e Marc Cuevas; e as baterias de Ramon Prats e Arnau Obiols. Neste seu terceiro registro, o tenteto apresenta oito temas próprios, gravados em janeiro de 2015 em Cornellà de Terri (Girona). O trabalho inicia com as duas partes de “To AEC”, homenagem ao mítico grupo de Chicago que pode ser percebida não apenas no nome, mas na sonoridade, especialmente a “parte I”, com seu groove contagiante. Já a faixa-título, composta por Reviriego, é a mais explosiva, com um sax realmente faiscante. “Little Eril”, na sequência, é seu reverso, com seus sons mínimos e toques por vezes quase imperceptíves. Toda essa amplitude criacional do grupo é condensada em “Hombre Pequeño”, com seus 14 minutos a encerrar os trabalhos, com os sopros cantando no final um tema daqueles que ficam ecoando na cabeça por um bom tempo. Grandes sons.








Free Art Three  ***(*)
Free Art Three
Discordian Records
Curioso trio formado pelos trompetistas Iván González, Julián Sánchez e Pol Padrós, o Free Art Three apresenta uma improvisação livre de contornos sutis e intrigantes harmonias. Os temas, de um modo geral breves, são mais contemplativos que enérgicos, mas apresentam material variado e interessante por razões diversas, valendo destacar o ar irônico de “Wa Wa”, a melancolia de “Crepúsculo Lunar” e os sussurros espasmódicos de “E.L.F.”. Gravado já há algum tempo, em março de 2013, em Veciana (Barcelona), o disco apareceu apenas em dezembro passado. Além do trio central, há participações de David Defries (outro trompete) e Valentín Murillo (flauta).









Fireflies and Mosquitoes  ****
Skullfuck
Raw Tonk
Skullfuck é um inflamado duo de sax e bateria. Formado Achilleas “Akipo” Polychronids (saxes tenor e soprano, além de pontuais eletrônicos) e Daniel Vega (bateria), o Skullfuck destila um som de elevada energia, sendo facilmente alinhado aos Dead Neanderthals e cercanias. Akipo é de origem grega e, após migrar para a Espanha, se uniu a Vega, em Málaga, para criar este potente projeto. O álbum traz apenas dois longos temas, como se feitos pensando em um vinil: Fireflies (16 minutos) é fogo direto, com sax e bateria em velocidade marcada durante toda a peça. Já Mosquitoes (19 minutos) mostra a que veio com maior vagar, com seus primeiros minutos ruidosamente crescendo via sopro, até a bateria ir surgindo com ímpeto, lá pelos cinco minutos, em frenético pulsar que logo domina a escuta, até percussão e sopro se aglutinarem em uma massa de pressão sonora, que desemboca em uma ruidosidade desconcertante em seu final.



  





Live – Betrayal  ***(*)
Sputnik Trio
Sentencia Records
O Sputnik Trio, que estreou em disco homônimo em 2014, volta aqui em registro ao vivo, realizado em maio de 2015 no El Juglar, em Madri. Formado por Ricardo Tejero (sax alto e clarinete), Marco Serrato (baixo) e Borja Díaz (bateria), o trio – que no ano passado lançou, em quarteto com a adição do saxofonista britânico Colin Webster, o intenso “Spain is the Place” – está em um nível elevado de entrosação, tocando de modo fluido, fazendo parecer que é até fácil. “Leaving a hole in Every Town” abre o registro, de apenas três temas, de forma direta, com o sax e a bateria em primeiro plano, para depois o baixo, em arco, assumir maior protagonismo – e criar alguns dos mais saborosos pontos do conjunto. Na sequência, “Call my with at home” assume um modo mais detalhista, de sons mínimos, baixando a tensão. “Don’t Let’ em Know” fecha o registro como que sintetizando as ideias apresentadas nos temas anteriores.  







On the Nature of Will  ****
Agustí Martínez/ Eduardo Altaba/ Quicu Samsó
Discordian Records
Este experimentado trio conduzido por Agustí Martínez (sax alto), Eduardo Altaba (baixo) e Quicu Samsó (bateria) apresenta um pouco mais de sua viva música, como que em uma continuação do anterior “Phantom Wall Syndrome” (2014). São oito temas improvisados em que o trio mostra grande interação e equilíbrio de forças – ninguém brilha mais ou assume papel protagonista. Martínez e Samsó tocam juntos há tempos em duo e a interação entre eles já é do tipo telepática. Gravado em março de 2016, On the Nature of Will não é energy music em sua essência, mas tem momentos mais quentes, como “Vulcanization” e “Vital Fluidity”. Martínez é um sax alto de grande inventividade, como mostra em temas como “Lust of the Sun”, e deveria ser mais conhecido. Sua discografia tem crescido mais apenas nos anos 2000, apesar de ser um músico veterano – como seus parceiros. Música equilibradamente livre.








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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. Também colabora com a revista online portuguesa Jazz.pt.
É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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