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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Sob as luas de Saturno





ENTREVISTA   Com uma nova série que reúne sete discos inéditos (The Art of Perelman-Shipp), Ivo Perelman expande sua vasta discografia e crê ter alcançado “um platô que ainda não havia atingido na minha vida como saxofonista”.
O músico conversou com o FreeForm, FreeJazz...




Por Fabricio Vieira
  

Radicado em Nova York há cerca de três décadas, o saxofonista paulistano Ivo Perelman é um dos nomes mais intensos da cena free contemporânea. Com uma discografia que supera 70 álbuns, Perelman inicia 2017 com a edição de um novo projeto, realizado ao lado do pianista Matthew Shipp (e diferentes convidados). Os novos sete discos, editados simultaneamente pelo selo britânico Leo Records sob a rubrica The Art of Perelman-Shipp, trazem diferentes formações – entre duo, trio e quarteto – de um volume a outro, sendo que cada um é subtitulado tendo por inspiração o nome de uma lua de Saturno. Ao lado do sax tenor de Perelman e do piano de Shipp se alternam baixistas (William Parker e Michael Bisio) e bateristas (Whit Dickey, Andrew Cyrille e Bobby Kapp), entre constantes e novas parcerias.
Perelman conversou com o FreeForm, FreeJazz sobre os lançamentos.      


Como foi planejada a série “The Art of Perelman-Shipp”? É um projeto seu ou em parceria com o Matthew Shipp?

Eu e o Matthew Shipp já vínhamos pensando há algum tempo em fazer um projeto em que o núcleo central fosse o nosso duo, mas observando como a nossa dinâmica é alterada com a interferência de outros músicos. Nós reparamos isso, o quão violenta pode ser a intromissão de um terceiro músico, ou quarto ou quinto, na nossa relação de duo, que é muito específica, muito intensa. Não é que um terceiro músico dilui, mas ele modifica, adiciona novos elementos: deixamos de estar em um diálogo de um para um e isso é muito interessante. O projeto foi decidido conjuntamente, foi feito com a intenção de focar a relação do duo, que estamos desenvolvendo há alguns anos. Ficamos muito satisfeitos com o resultado porque o que almejávamos foi, a nosso ver, realizado. O CD 6, que é exatamente o duo, dá uma ideia muito clara ao ouvinte sobre o que é o duo sem sofrer modificações, intocado, e cada um dos restantes seis CDs mostra o quanto é interessante a influência de músicos terceiros nesse diálogo original que temos mantido.


Apesar de saírem juntos, com capas que dialogam e ser um projeto em volumes (do 1 ao 7), os discos são independentes. Porque não aproveitou a união de ideias e fez um box, uma caixa com o material todo reunido?

O fato de não ter saído como uma caixa, algo que cogitei realizar, foi puramente business, uma decisão da gravadora que achou que nesse caso seria melhor manter os CDs separados. Se por ventura isso [um box] vier a acontecer no futuro, muito irá me agradar, porque é algo que oferece ao ouvinte um quê especial e ainda não foi feito na minha discografia.

As gravações foram realizadas já pensando no projeto ou foi apenas depois, vendo os registros que tinha à disposição, que decidiu editar conjuntamente?

Não, as gravações foram propositadamente planejadas como uma sequência de sete semanas, eu tinha este tempo disponível e o Matthew também e a gente já queria realizar este projeto há algum tempo e marcamos as sete sessões. Demorou algum tempo para poder ajustar com a disponibilidade dos outros músicos envolvidos, mas acabou dando certo.

Não vejo uma sequência nos discos, indo do volume 1 ao 7, que me pareça lógica – nem uma evolução dos conjuntos (do duo ao quarteto, por exemplo), nem por parcerias (antigas e novas), nem por data de gravação... Como a sequência foi decidida?

A sequência dos CDs, do 1 ao 7, foi por mim decidida de uma forma bastante intuitiva e prazerosa. Me coloquei no lugar do ouvinte, apesar de ser um dos protagonistas do trabalho. O que pensei foi: como gostaria de ouvir isso se eu fosse uma outra pessoa? E dediquei um tempo a ouvir as gravações em sequência e esteticamente esta foi a solução mais interessante que encontrei. Não é uma solução baseada em datas de gravações ou variação das formações, não, foi simplesmente o prazer auditivo que isso me causou.

Alguns dos parceiros que aparecem nos álbuns têm sido constantes em sua atual fase, como Michael Bisio, William Parker e Whit Dickey. Mas há novidades nas figuras de Andrew Cyrille (com quem você só havia tocado em meados dos anos 90) e especialmente Bobby Kapp, um pioneiro do free jazz pouco lembrado e com quem você se uniu pela primeira vez. Como os parceiros foram escolhidos?

A escolha dos parceiros foi baseada no seguinte: comecei a ter vontade de trabalhar com novos músicos; não que esse grupo seleto e fixo de músicos com os quais eu venho fazendo uma rotatividade tenha esgotado a fonte ou eu não tenha mais prazer em tocar com eles. Mas acho que é hora de alçar outros voos com outros nomes. De qualquer forma, basicamente mantive quase todos os com quem venho trabalhando, com exceção do Joe Morris... E o Matthew me contou das gravações recentes que ele havia feito com o Bobby Kapp, eu escutei um CD que eles gravaram, “Cactus”, e gostei bastante... Eu conheço alguns dos discos que o Bobby Kapp gravou nos anos 60, em particular um que eu gostava muito, que é uma gravação com o Gato Barbieri [“In Search of the Mystery”, de 67], fiquei impressionado com o fato de que o Bobby estava vivo, trabalhando, no alto da forma com seus 75 anos, então deu certo, combinamos com ele e ele veio... Essa vontade continua, de acrescentar outros músicos ao nosso duo, por que o benefício é muito grande, cada músico traz um foco ainda desconhecido e uma faceta ainda não desenvolvida do nosso trabalho. O maior prazer que tenho é me deparar no transcorrer do discurso musical com frases e situações nunca antes vividas. Evito quase que conscientemente repetir fórmulas, frases que já ouvi, que sei que já saíram de meus dedos, eu gosto do novo, do lúdico, do que me dá prazer, do play, que é realmente um brincar.


Os títulos de seus álbuns muitas vezes estão ligados a situações ou fases que esteja vivenciando. Desta vez, com “Rhea”, “Dione”, “Pandora” etc., essa possível conexão não parece, a princípio, muito clara...

Os títulos dos CDs são nomes de luas de Saturno. Eu descobri que estou entrando na fase de Saturno, astrológica, eu e Matthew simultaneamente, e acho que isso não foi uma coincidência, mas uma sincronicidade. Tenho sentido um platô que ainda não havia atingido na minha vida como saxofonista. Sinto que as técnicas às quais me dediquei a estudar nos últimos anos estão começando a realmente render frutos. Nos últimos anos, estudei a técnica do trompete barroco, a música das trompas sem chaves, que são as avós da trompa moderna, o meu estudo da ópera e a minha paixão musical pela Maria Callas, a influência de Clarice Lispector, enfim, sinto que essas influências e disciplinas estão se tornando sólidas e estou colhendo frutos maduros desse investimento que fiz. E penso que isso tem a ver realmente com essa fase que estou entrando de Saturno, a cada 28, 29 anos entramos em um ciclo astrológico sob influência de Saturno e grandes coisas podem acontecer, negativas ou positivas, mas sempre intensas e tem a ver com a dedicação que a pessoa se empenhou em ter em anos precedentes. Tanto o Matthew... nós conversamos sobre isso, ele também se sente na mesma fase que eu, um eclodir e uma síntese de muitos anos investidos que agora, como num vidro bem polido, se pode enxergar do outro lado com clareza cristalina.              


O resultado de algum disco agradou você de forma especial?

Gostei de todos eles... gostei demais do trio com o Andrew Cyrille, que é um capítulo vivo da história do jazz, com sua experiência inacreditável, todo seu trabalho com o Cecil Taylor... Também gostei da introdução ao mundo musical do Bobby Kapp, que será em breve repetida com o Matthew e outros músicos, mas fiquei especialmente surpreendido com o trio com o William Parker, que foi o terceiro CD que gravamos neste formato, o primeiro, há muitos anos, nos anos 90  [“Cama de Terra”, registrado em 96], depois há uns três anos de novo [“Book of Sound”] e agora nesta série Perelman-Shipp. Outro que eu gostei demais é o quarteto com o Whit Dickey e o Michael Bisio, que considero meu quarteto oficial e estaremos inclusive tocando no Vision Festival [dia 3 de junho, em NY], já gravamos dois CDs anteriores e o que me agrada sobretudo é observar a evolução deste grupo, aqui os egos desaparecem, o que está em evidência é apenas o som do grupo, acredito que agora o que conseguimos é um som de grupo, de quarteto genuíno... um som de trio também, com o William, original, que tem vida própria, quase que independente da nossa vontade e a cada capítulo se revela como um ser pulsante, vivo, e vale dizer que planejo sim continuar gravando com essas formações. O volume 6 da série também, obviamente, me agradou muito porque o trabalho com o Matthew eu desconfio que é eterno e que vai continuar evoluindo até o momento em que eu ou ele nos transportemos para outro plano de existência, porque não param de surgir as surpresas que eu sempre espero, os momentos em que a música se revela fresca, pulsante, cósmica, em constante expansão. Então este disco 6 é na minha opinião o próximo passo, o próximo grau de desenvolvimento do duo.   


A sua parceria com o Matthew Shipp tem ao menos dois capítulos. O começo, na década de 90, quando gravaram os álbuns “Cama de Terra” e “Bendito of Santa Cruz”. E o reencontro em 2010, quando ele participa da gravação de “The Hour of the Star” e sedimenta uma nova etapa no diálogo entre vocês, com muitos registros desde então. Queria que falasse um pouco sobre o encontro de vocês (nos anos 90) e o reencontro (nos anos 2000).

Quando trabalhei com ele naquela primeira fase, como você diz, eu era verdadeiramente uma outra pessoa musicalmente falando, considero que na época eu tocava muito mais com instinto, energia, espontaneamente. Acredito que a vida, a maturidade e, sobretudo, as dificuldades que passei me deram a oportunidade de desenvolver técnicas e atitudes valiosas que se refletem no meu approach, na minha forma de abordar a música. Naquela época, eu era um jovem abundantemente cheio de energia, com um canal vibrante e direto para que a música que habita dentro de mim saísse. Com o aprimoramento, a existência, a maturidade, essa energia intuitiva, antes de passar para o mundo exterior, ela é lapidada de uma forma criteriosa. Na época, eu não podia, apesar de ter gostado muito de trabalhar com ele, prever que um dia iria me relacionar com o Matthew da maneira como hoje. Eu tocava com muitos outros músicos, em outras situações, enfim... Esta segunda fase com o Matthew é talvez a maior dádiva que eu tenha recebido na minha carreira musical. E não consigo prever um fim a esse trabalho que está se desenvolvendo de uma forma magnífica a meu ver.       



Mais algum álbum planejado para lançar neste ano ou 7 para 2017 está de bom tamanho?

Sim, há outros álbuns que serão lançados em outubro. A minha régua sobre o que está de bom tamanho não é, na verdade, o número de CDs, mas a necessidade de colocá-los no mercado sob a perspectiva estética, porque cada ano destes últimos anos tem sido muito intenso. Tenho tido o privilégio de trabalhar com a Leo Records, que está me dando todo o apoio que jamais tive e lançando discos logo após sua realização. Assim, o feedback é instantâneo e consigo maximizar meu crescimento. Como ainda estou gravando e vou apenas depois fazer a escolha dentre o que já está gravado e o que está sendo feito, ainda não posso dizer quais são [os que sairão em outubro].”

Você inicia uma turnê em duo com o Shipp em breve. Por onde passarão? Algo previsto para Brasil?

Vamos passar por cinco países: Rússia, Áustria, Holanda, Alemanha e Bélgica. No dia 7 agora tocamos aqui em Nova York, no Le Poisson Rouge. No Brasil há a expectativa de poder ir com o duo, mas nada certo ainda. Já faz tempo que não toco no Brasil, uns três anos [a última apresentação no país foi em agosto de 2013], e gostaria muito de mostrar ao público onde estamos hoje, nesses últimos anos a intensidade do meu trabalho com o Matthew aumentou muito, a especificidade estética se desdobrou em muitos e tenho muita vontade de mostrar isso ao público brasileiro. 




  


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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. Também colabora com a revista online portuguesa Jazz.pt.
É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

  

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