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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Som nos arredores






LANÇAMENTOS  Destaques nacionais editados nos últimos tempos.
Experiências em várias formas. 
Ouça, divulgue, compre os discos.






Por Fabricio Vieira



Rohrer – Somervell    **** 
Thomas Rohrer e Philip Somervell
Submarine/ Brava Edições
 Este é um encontro entre dois músicos estrangeiros radicados em São Paulo: Thomas Rohrer, suíço, que toca sax soprano e rabeca; e Philip Somervell, pianista anglo-chileno. Os dois se conheceram em Londres, em 2009, e desde então passaram a desenvolver projetos ligados à improvisação livre, que agora culminam neste álbum em duo. Para este trabalho, Rohrer explora rabeca, eletrônicos e objetos amplificados; já Somervell vai de piano preparado e objetos. O resultado do encontro são três temas de durações variadas (de 7 a 51 minutos), em que os músicos exploram texturas e ruidosidades mínimas para criar divagações sonoras inebriantes, por vezes soturnas. O núcleo do disco é a segunda faixa, com seus 51m20, nos quais as ideias do duo são desenvolvidas de forma mais dilatada, com a letargia que demonstram demandar. Antes e depois dela, encontramos os temas “1” e “3” atuando como abertura e epílogo, como se suas funções fossem apresentar e arrematar a música de pontilhística fatura de Rohrer e Somervell. Este é um álbum para ser ouvido com silenciosa atenção, para não se perder as delicadas nuances que o marca. Edição limitada de 100 fitas cassetes.






Sangue Negro   ***(*) 
Amaro Freitas
Independente
Álbum de estreia do pianista pernambucano Amaro Freitas, Sangue Negro se propõe a explorar um jazz embebido de brasilidades. Tendo por base um trio, ao lado do baixista Jean Elton e do baterista Hugo Medeiros – há ainda as participações especiais em duas faixas de Eliudi Souza (sax) e Fabinho Costa (trompete) –, Freitas desenvolve seis temas autorais em um saboroso registro que poderíamos enquadar na esfera do pós-bop. A quase-balada “Norte” é um destaque no conjunto, com o piano alterando momentos minimalistas com bruscas aceleradas rítmicas e uma melodia cativante mantendo seu núcleo centrado. Apesar da variedade sonora explorada, o disco é bem coeso em sua proposta. O tema de abertura (“Encruzilhada”), por exemplo, traz algo do frevo; já a faixa-título vai beber em elementos do maracatu. Mas o produto final é um instrumental que, se muito olha para diferentes sonoridades brasileiras, está mergulhado no universo do jazz, sem o qual não existiria. Gravado no Estúdio Carranca (Recife), Sangue Negro é uma sólida e equilibrada estreia, mas que ganharia muito se tivesse um pouco mais de liberdade exploratória, algo fora do esperado, improvisadamente sem amarras.
 






Phersu  **** 
Felipe Zenícola
Seminal Records
Com Phersu, Felipe Zenícola (do CCP) dá continuidade a seu trabalho com baixo solista iniciado em “Arcanos”. Mas aqui trata-se de apenas um tema – diferentemente do diverso jogo de possibilidades do título anterior –, com uma exploração bastante centrada e direta. O baixo elétrico de Zenícola (com afinação flácida, como ressalta) funciona como um potente propulsor de ruidosidades, criando uma linha improvisativa contínua e ininterrupta que prende nossos ouvidos por 17 minutos (que podem parecer muito mais), como uma chuva de granizo ecoando no telhado que, sem aviso, sobe e desce em intensidade, até calar repentinamente. Na apresentação do disco, há uma proposta de escuta: “Sentar-se confortavelmente em um ambiente escuro. Olhar fixamente para a máscara [ver a capa] enquanto escuta. Ao final, fechar os olhos e contemplar a si”. Essa ideia de meditação/transe auditivo está em consonância com a hipnoticamente repetitiva música criada: um uivo cortante que pode se revelar por vezes perturbador.







Retífica  **** 
Dias/ Munhoz/ Dornelles
Mansarda Records
A cena de Porto Alegre tem sido um importante espaço criacional para a música improvisada nos últimos anos. E a Mansarda Records, com seus cinco anos de existência e mais de 70 álbuns editados, um capítulo fundamental de registro do que acontece por lá (e cercanias). O saxofonista e clarinetista Diego Dias (um dos responsáveis pelo selo) é um dos mais ativos músicos de POA, com variados projetos de enfoques múltiplos, que se estendem agora também por pesquisas eletrônicas (com o projeto “Bramir”). Aqui, Dias se une a dois antigos parceiros, Michel Munhoz (percussão) e Igor Dornelles (guitarra), com quem já trabalhou em diferentes agrupações, a destacar o quarteto Máquina Overlock – um de seus veículos de fatura mais enérgica. Retífica é composto por quatro temas, nos quais vemos uma voz menos explosiva (ao menos não de ponta a ponta) de Diego, o que é positivo: vê-lo desenvolver ideias de forma mais centrada, onde pode mostrar nuances de sua feição enérgica mais característica. Isso fica bem apresentado na faixa de abertura, “Franzo”, que, não apenas por ser a mais extensa (18 minutos), se mostra a melhor apresentação às ideias contidas no trabalho. O sax abre a faixa em divagações oscilantes, com percussão e guitarra respondendo, como se buscassem localizar o núcleo preciso a ser explorado; a música vai se moldando nessa interação, com a guitarra assumindo a dianteira lá pelo meio da peça, desembocando nos momentos mais quentes após o retorno do sax. Esse processo tem sua vivacidade ruidosa mais explicitada nos pouco mais de cinco minutos da faixa “Jus”, com Dornelles em seus momentos mais inventivos. Para quem se interessou pelo trabalho, os músicos deixam o aviso de que vem mais por aí: “Uma hora de acerto de microfones, três horas de gravação. Toda música produzida na sessão será lançada”.




Mind is What Matters  ***(*) 
André de Castro
Al Sand REC
Também de Porto Alegre vem este trabalho solo de André de Castro. O músico, já apresentado aqui como integrante do projeto “Quinta do Lobo”, aparece desta vez acompanhado apenas por sax tenor, clarinete e flauta doce tenor. Um trabalho solístico como este pode ser muito arriscado, afinal, o músico está lá só, desnudo, e qualquer deslize (sim, não faltam deslizes no free, os riscos que a liberdade criacional traz são maiores do que muitos imaginam...) fica mais explícito. André se sai bem e mostra que este é um caminho para o qual tem armas para seguir explorando e, se tiver ânimo e foco para tanto, vir a gestar coisas cada vez mais empolgantes e desafiadoras. O músico cita Evan Parker e John Butcher como referências/inspiração para este trabalho, em que a respiração circular e a energia expressiva são dois vetores essenciais – especialmente nas peças para sax (onde André se sai melhor) e clarinete. No caso dos temas para flauta, como “Tegmentum”, encontramos outras vias, mais pontilhísticas e quase sussurradas.







3 Solos  **** 
Mário Del Nunzio
Seminal Records
Este álbum reúne três apresentações solos do guitarrista Mário Del Nunzio realizadas em diferentes locais no ano passado. O primeiro tema foi gravado em 15 de outubro, no Recife; o segundo, em 28 de outubro, em São Paulo; o terceiro, em Porto Alegre, em 18 de novembro. Os trabalhos apresentados variam bastante e não apenas por seu caráter improvisativo. Como destaca Del Nunzio no encarte, diferentes coisas fizeram com que cada show tivesse uma particularidade. “Solo 1” foi gravada “em um ambiente de bar, sem palco, aberto à rua e à circulação das pessoas”, sendo a única em que o guitarrista utilizou sua pedaleira de efeitos. “Solo 2” foi registrada no Ibrasotope, a casa do músico, sendo que a pedaleira deixou de funcionar e o artista acabou trabalhando apenas com a guitarra ligada diretamente no amplificador – o que resultou em um material de voltagem mais silenciosa. Sobre “Solo 3”, o músico diz que foi “possivelmente uma das vezes” em que tocou “mais alto em apresentações solo” – e isso está bem pontuado no registro, de elevada densidade e ásperas ruidagens, que compõem os mais excitantes momentos do conjunto. Intencionalmente ou imbuídas de acaso, essas três exibições solísticas de Del Nunzio ilustram o amplo espectro de pesquisas sonoras que marca seu trabalho, quer seja como compositor, improvisador ou mesmo produtor (ele é um dos responsáveis pelo FIME), sendo uma boa introdução a seu universo criacional.  







1974  ****(*) 
FLAC + Dias
ZBR Records
Sendo um dos mais sólidos projetos da cena free local, o duo FLAC – formado por Flavio Lazzarin (bateria) e Andre Calixto (saxes) – recebe aqui a adição do baixo de Alex Dias para duas longas intensas improvisações. Registrado em maio do ano passado no 74Club, no ABC paulista, 1974 é um dos melhores trabalhos do duo, que mostra elevado entrosamento e criatividade improvisativa de primeira linha. No tema “Lado A”, são 20 minutos de música enérgica, que culminam com um baixo, lá pelos 12 minutos, hipnótico, com uma densidade quase metal que leva a temperatura a seus extremos. Já “Lado B”, além de mais curta (14 minutos), é um pouco menos explosiva. Com um sax em modo mais melódico, Calixto domina os minutos iniciais, antes de abrir espaço para uma passagem marcada apenas por baixo e percussão, mais cadenciada, que prepara o mergulho nos picos mais quentes, especialmente com o retorno do sax e o arco acentuando o toque do baixo, que levam ao mais incendiário, conduzindo a apresentação a seu fim. Divididos entre vários projetos de diferentes visadas, Lazzarin e Calixto acabam, a nosso ver, dedicando menos tempo do que deveriam ao FLAC, responsável por alguns dos mais empolgantes sons feitos na cena local contemporânea.







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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico.
É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

Um comentário:

Mister W disse...

Obrigado por nos dar a conhecer estes novos sons da música brasileira. Será que se conseguem arranjar deste lado do Atlântico ?! (formato físico)