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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

I. Perelman + C. Lispector: risco de overdose sensorial

Desde que fez sua estreia em disco –estamos falando de 1989–, raros foram os anos em que Ivo Perelman deixou de soltar um trabalho novo. O saxofonista abre 2012 com Family Ties, pela Leo Records, e promete outros títulos para os próximos meses. Muita coisa foi gravada por ele recentemente e novidades não devem tardar em desembarcar nas prateleiras. A destacar: uma gravação em duo com o veterano Joe McPhee; um trio sax-piano-bateria com Matthew Shipp e Gerald Cleaver; e um encontro com o quarteto de cordas Sirus (ao que tudo indica, esses dois últimos saem até maio).

Family Ties é o 37º álbum editado por Perelman nessas pouco mais de duas décadas de carreira –uma produção de quase dois rebentos anuais. Em trio, traz o saxofonista acompanhado de Joe Morris e Gerald Cleaver. O álbum é um desdobramento do título anterior, “The Hour of the Star”, realizado com o brilhante quarteto (esse trio + Shipp, agora ausente) que veio ao Brasil em 2010. “Family Ties” (Laços de Família) faz parte do ciclo clariceano, iniciado por Pereleman em 2010 com “The Stream of Life” (Água Viva) e “The Apple in the Dark” (A Maçã no Escuro), que traz uma serie de discos titulados com nomes de livros da escritora Clarice Lispector (1920-1977).

Mesmo sendo, em certo aspecto, uma continuidade de “The Hour of the Star”, esse “Family Ties” soa bem diferente. E não apenas pela ausência do piano. O corpo free improvisation está mais latente, com um menor ainda apoio temático, que podia ser captado de forma mais clara em certas passagens do disco anterior. A supressão de Shipp também não significa algo simples como “o quarteto menos o piano”. Se os músicos são (praticamente) os mesmos, a viagem improvisativa desnuda outras nuances.  

Cleaver tem se revelado um baterista de corpo ideal para Perelman. As marcações rítmicas metálicas que moldam a soltura quebrada de pouca robustez do baterista engolfam e suportam de forma equilibradíssima o sax tenor acidamente lírico de Ivo. O baixo de Morris também se revela precioso à sonoridade do trio –mas, ressalte-se: fica o desejo latente de ouvir Morris empunhando a guitarra nesses trabalhos. Seu baixo é seguro; todavia, à guitarra Morris é simplesmente o maior nome em atividade na free music atual.

Family Ties” se inicia com Ivo testando o toque anasalado do kazoo, soando como se fosse o mensageiro de uma nova jornada às trilhas clariceanas, prestes a começar. Não tarda para que o protagonista tenor ascenda a primeiro plano, ditando o percurso sem rumo predefinido no qual os três instrumentistas irão se embrenhar nos 75 próximos minutos. “Love” e “Family Ties”, as duas mais extensas faixas, mostram como esse trio poderia passar horas improvisando tendo como destino apenas o de criar música jamais realizada anteriormente. Nunca se repetem ou entediam, levando os ouvidos a caminharem em meio a passagens de pico de elevadíssima tensão, por entre caminhos ora sombrios, ora excitatórios (vejam o que ocorre entre os 10 e 13 minutos da faixa “Family Ties”), que fazem com que o disco jamais soe de forma plana.

O som engrossa de modo mais direto em “The imitation of the rose”, com os músicos extraindo coloração de maior densidade e rapidez, que se agiganta continuamente até os cinco minutos, com Ivo improvisando praticamente de ponta a ponta, esgarçando rastros melódicos que se perdem antes que possamos decodificá-los. “Mystery in São Christovão” abre em outro tom, com uma soturna melodia que remete vagamente ao clima do clássico ornetteano “Lonely Woman”, para logo se adensar, tateando rumos outros –apenas em seu minuto final tal clima é resgatado. Na sequência, a balada “The bufallo”, com ar de fim de noite regada a uísque morno desbotado em gelo derretido, encerra mais esse adentramento no cosmo clariceano. Sorrateiramente bluesy, “The bufallo” amansa os ouvidos após mais de uma hora de tensão auditiva. Sem dúvida, esse ciclo de homenagem à Clarice não deve ser encarado como um diálogo intersemiótico litero-musical. Essa nunca foi a intenção do saxofonista. Ousar ler Clarice Lispector escutando esse(s) álbum(s), como se de trilha sonora se tratasse, pode ter como resultado uma indesejável overdose sensorial.

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