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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Play it Again... (novidades de Espanha, Suécia, Brasil, Portugal, EUA...)






Apanhado de novidades imperdíveis da free music.
Sons de todos os cantos, experiências em várias formas. 
Ouça, divulgue, compre os discos.








"Viscera" ****(*)
Colin Webster / Mark Holub
New Atlantis

O duo britânico de sax (Colin Webster) e bateria (Mark Holub) alcança neste Viscera seu melhor registro. Webster e Holub mantêm essa parceria há alguns anos e já atingiram o ponto ideal de intimidade sonora, no qual nenhum se sobressai ao outro: essa música só existe em seu máximo devido à harmonia conquistada por eles. Gravado em uma única sessão, Viscera tem como base a improvisação livre (“sem discussões ou ideias pré-concebidas antes de fazer os takes”, diz Webster), sendo exceção o tema que fecha o disco: uma saborosa releitura de “Chant”, de Roscoe Mitchell. O registro abre com “Big Paws on a Puppy”, na qual o sax barítono comanda as ações. Webster passa também pelos saxes tenor e alto (neste, destaque para o tema “Conkan”), mostrando a amplitude de suas intervenções. Em oito faixas, o duo exibe uma música inquietante, agressiva quando tem de ser, contemplativa quando o momento pede. Visceral, em suma.






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"Sputnik Trio" ***(*)
Tejero/ Serrato/ Díaz
Raw Tonk

Esse novo trio vem da Espanha e reúne o saxofonista Ricardo Tejero – que já tivemos a oportunidade de ver em ação no CCSP – a dois dos músicos que formam o Hidden Trio, Marco Serrato (baixo) e Borja Díaz (bateria). Do mais enérgico free jazz a momentos de sóbria investigação improvisativa, o Sputnik Trio cria uma ampla gama de sons e possibilidades oferecidas por esse que é um dos formatos mais explorados. A envergadura dos treze temas registrados é bastante variável: ouvir uma faixa ou outra pode gerar uma impressão equivocada do conjunto. “Rag from Mars”, por exemplo, abre os trabalhos em alta voltagem, energy music sem rodeios. Já “Grave for a dog – lunar womb” é quase uma balada, trazendo o que de mais melódico há no conjunto. Há também momentos como os de “Magma Hurlant”, em que os músicos se concentram em explorar técnicas estendidas e nuances timbrísticas. Em toda sua variedade, Sputnik Trio é uma estreia realmente forte.






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"Ready!" ****
Josep Lluís Galiana / Carlos D. Perales
Clamshell Records

Outro registro vindo da Espanha, Ready! apresenta a primeira colaboração entre o saxofonista Josep Lluís Galiana (tenor e soprano) e o pianista Carlos D. Perales. Gravado em abril deste ano, no Conservatório Municipal de Música de Moncada, em Valência, o álbum é uma sólida sessão de improvisação livre, que bem apresenta esses dois músicos que, apesar de terem já uma bagagem artística considerável, são relativamente menos conhecidos na cena free internacional. “Red Marteau”, que abre o disco, exemplifica bem a estética pontilhística que marca o trabalho. Ready!, com seus nove temas, demanda uma escuta atenciosa, na qual os contrastes mínimos, em meio ao discurso fragmentário do duo, acabam por desvelar uma música de elevada tensão e densidade.






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"Ett"  ***(*)
Apuh!
Palsrobot

Esse novo trio vem da prolífica cena free sueca, trazendo a clássica formação de sax, baixo e bateria. Em seus cinco temas, o disco de estreia do Apuh! mostra os jovens instrumentistas em busca de um caminho próprio, no qual a improvisação livre é relevante, mas em que há espaço para a construção melódico-temática, mesmo que isso sirva apenas de base para a liberdade expressiva dos músicos. A bem ajustada “Hallbara ballonger” abre o álbum, sendo a peça que melhor exibe a herança do free jazz sessentista presente no DNA do trio. Outro tema de relevo é “Do androids dream of electric sheep?”, que fecha Ett. Esse é o único tema em que Adrian Sellius assume o clarinete baixo, acabando por destilar algumas das passagens mais encantatórias do conjunto – porque não tocar mais o instrumento, então? Com uma unidade já bem definida, o trio, completado por Mats Dimming (baixo) e Hampus Ohman-Frolund (bateria), começou a atuar apenas em 2012. Que venham os próximos capítulos.







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"A Lei do Estanho" ***(*)
Diego Dias / Michel Munhoz
Mansarda Records

O saxofonista Diego Dias e o baterista Michel Munhoz são dois dos mais ativos músicos da cena free de Porto Alegre. Juntos, estão envolvidos em uma série de projetos, editados todos pelo Mansarda Records (selo criado por Dias há alguns anos e que conta com um extenso catálogo de 65 títulos). Em duo, lançaram já alguns registros e retomam a parceria nesse novo disco. Dias e Munhoz mostram aqui uma face mais centrada, contemplativa até, praticamente um contraponto à intensa energy music que marca outros projetos com os quais estão envolvidos, como o vivaz trio “Honorável Harakiri”. Investigando possibilidades dialogais e relações timbrísticas, forçando a escuta a se concentrar para encontrar o rumo entre as variantes oferecidas por sopro e percussão, este A Lei do Estanho mostra a seriedade desses músicos em relação à improvisação livre, com fortes resultados como nas faixas “Ligar-se ao Chumbo” e “A Maleabilidade do Estanho”. Um ponto de maturação artística no qual não se tem mais que gritar para ser ouvido.







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"Opacity" ***(*)
Luís Vicente / Jari Marjamaki
JACC Records

Opacity marca o novo encontro entre o trompete do português Luís Vicente e as investigações eletrônicas do finlandês Jari Marjamaki, duo que havia gestado anteriormente o cativante “Alfama Sessions”. Com uma sonoridade marcada por texturas envolventes e improvisos labirínticos, Vicente e Marjamaki conseguem inebriar os ouvintes com densas divagações, como as brilhantes “Fractal” e “Tablets of the Memory”. Há também espaço para momentos de pegada mais intensa, que podem ser apreciados em “Pollock was Right” ou na quente “Got that Zing”, com sua pulsante batida cravejada pela guitarra (há alguns convidados participando de um tema ou outro, como o violoncelista Miguel Mira e o guitarrista Marcelo dos Reis). Em um momento em que uma série de trompetistas geniais circulam pela cena free, Vicente vai demarcando seu espaço como um dos nomes que devem ser acompanhados com atenção. 
  




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"Imber, Wiltshire" ***
KÖök
VaFangool

KÖök é um projeto dos guitarristas noruegueses Jorn Erik Ahlsen e Stian Larsen, que busca desenvolver uma música letárgica e espacial. O título do disco se refere a uma cidade britânica evacuada em 1943 para se tornar um centro de treinamento militar. Finda a guerra, os cidadãos não retornaram mais, ficando a cidade abandonada para sempre. O que o duo de guitarristas (que também manejam eletrônicos) se propõe aqui é exatamente criar uma trilha para essa cidade sem ninguém. Uma proposta interessante, mas que às vezes soa meio sem rumo, fazendo com que a escuta se perca aqui e ali.
  




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"Low Cost Space Flights" ****
Flaherty / Corsano
Feeding Tube Records


Intenso novo registro de um dos duos mais fortes do cenário free. Paul Flaherty e Chris Corsano já gravaram uma meia dúzia de álbuns juntos na última década e mostram aqui que ainda têm muito a dizer. Flaherty, lendária figura do free underground, tem em Corsano um parceiro ideal, que o leva a extrair seu melhor, com seus picos de fúria incandescente em meio a lampejos melódicos, em um desenvolvimento marcado por vales e cumes, cheio de paradas e acelerações, como fica bem exemplificado na longa faixa que abre o registro, “The Dog Paintings of George W. Bush”.
Com apenas cerca de 35 minutos de duração, Low Cost Space Flights não economiza em vitalidade e mostra que Flaherty, aos 66 anos de idade, segue como uma das vozes realmente  inquietantes da cena







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Spring Grove****(*)
Signs of the Silhouette
Bam Balam Records

Neste seu quarto título, o duo português Signs of the Silhouette – ou trio, se contarmos Miguel Cravo, responsável pelas projeções/imagens que fazem parte do projeto – recebe dois convidados: no baixo, Hernani Faustino; nos keyboards, Tiago Sousa. Desse encontro brota intensa free music regada de elementos de noise, post-rock e algo de psicodelia: o resultado é genial. São cerca de oitenta minutos de música perturbadora, dividida em quatro temas, que se configuram, na realidade, como partes de um todo: ouvir o disco sem pausas eleva ainda mais sua potencialidade hipnótica. Pena que a plenitude do projeto não possa ser degustada apenas escutando a gravação (que sai em CD e vinil duplo): o trabalho imagético conduzido por Cravo faz das apresentações ao vivo do Signs of the Silhouette algo singular, uma experiência viva que só pode ser presenciada in loco. A adição de baixo e teclados aqui se mostra muito acertada, conseguindo ampliar as vibrações ruidosas de guitarra (Jorge Nuno) e bateria (João Paulo Entrezede), o que faz deste Spring Grove um capítulo único na trajetória do grupo.
 





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*o autor:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura, tendo se especializado na obra do escritor português António Lobo Antunes. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; também foi correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e jazz para o Valor Econômico.


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