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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Omaggio a Gilberto Mendes (1922-2016)





O ano começa com a triste notícia da morte de um dos artistas mais inventivos a surgir no cenário nacional. Na sexta-feira, dia 1, Gilberto Mendes, vitimado por um infarto, encerrava sua longa jornada sonora. Aos 93 anos, deixou dezenas de desafiadoras obras, um legado fundamental para a música criativa de qualquer canto em qualquer tempo.



A história de Gilberto Mendes sintetiza a odisseia daqueles que nunca desistiram de crer e criar: a arte como fundamento. Tendo vivido sempre em Santos, litoral de São Paulo, onde nasceu em 1922, distante dos principais centros culturais, Mendes teve de estruturar um caminho próprio. Para sobreviver e manter sua criação sempre livre, trabalhou até se aposentar como bancário na Caixa Econômica Federal. “Eu precisava trabalhar e fui ser bancário. Prestei concurso na Caixa Econômica e entrei. Eu pegava aquelas notas de empréstimo, de financiamento de casa, e ficava rascunhando atrás, fazendo anotações, escrevendo ideias musicais. Fui bancário a vida toda, 34 anos, mais um de licença prêmio, e me aposentei. Meu melhor ordenado ainda é o que ganho como bancário aposentado”, disse, certa vez, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Se tornaria também, mais à frente em sua trajetória, professor de música, na Universidade de São Paulo, onde concluiu doutorado. Mendes começou a estudar piano relativamente tarde, aos 19 anos, no Conservatório da pianista Antonietta Rudge. Em 1944, começaria a estudar harmonia e foi aí que compreendeu que seu caminho estava mais ligado à composição do que a ser instrumentista, como inicialmente desejara. O interesse do estudante Mendes logo se voltou às vanguardas; primeiro, o interesse pelo Microcosmos de Bartók; depois, Debussy e Webern, “meus mestres maiores, mestres da simplicidade, da expressividade”, dizia ele.
  
A chegada dos anos 1960 seria fundamental na trajetória de Mendes, marcando definitivamente seu nome no cenário da música experimental. Em 62, o compositor foi aceito no curso de verão de Darmstad, na Alemanha, onde pôde estudar com Henri Pousseur, Stockhausen e Pierre Boulez. Nesse tempo, também esteve muito próximo ao grupo da poesia concreta, escrevendo algumas de suas mais célebres peças a partir de poemas dos protagonistas do movimento, como Nascemorre (Haroldo de Campos), descrita como uma experiência de música aleatória e microtonal com vozes corais, percussão, 2 máquinas de escrever e tape, produzida entre 62 e  63; Motet em ré menor (Beba Coca-Cola), a partir de poema de Décio Pignatari, de 67; e Vai e Vem (José Lino Grünewald), para coro, fita, toca discos, papel de seda sobre pente e flauta doce, de 69; antes de acabar a década, comporia ainda um dos principais marcos de sua obra, Santos Football Music, para orquestra, gravações com jogo de futebol e participação ativa do público. Data ainda do período a criação do evento Festival Música Nova, que ele concebeu para apresentar sonoridades contemporâneas, sempre ignoradas por outros festivais musicais, e que alcançou quase 50 edições, tendo sido realizado com periodicidade anual, com pouca (ou menos ainda) verba, da forma que era possível: independentemente da descrença de muitos em relação à vitalidade dessa música, Mendes nunca desistiu de vivê-la e promovê-la.

(Nascemorre)


Foi assim, batalhando com e pela arte na qual acreditava, que  Mendes gestou uma das obras mais expressivas e inventivas do repertório contemporâneo. Indo de criações de uma radicalidade mais dura, embebidas no serialismo integral idealizado por Boulez e Stockhausen, passando pela liberdade aleatória e a soltura dos happenings de John Cage, alcançando momentos de elevado  lirismo em lieder apoiados sempre em poesia brasileira (musicou textos de Carlos Drummond de Andrade, Haroldo e Augusto de Campos, Hilda Hilst, Vinícius de Moraes, Florivaldo Menezes, Alberto Martins, José Paulo Paes e outros tantos), a obra de Mendes registra um catálogo de aproximadamente duas centenas de composições desenvolvidas em sete décadas de trabalho – a maior parte desse material, claro, não dá para encontrar editada em disco no país...
A escuta da obra de Gilberto Mendes mostra-nos como as vanguardas universais podem se integrar a sonoridades brasileiras no desenvolvimento de uma música muito particular. “Música experimental, mas à minha maneira. Experimento com linguagens, combinatório, visando uma nova linguagem para um momento novo, atemporal. Naturalmente pesa nessa experiência o meu repertório, os sons que formaram meu gosto musical. Outro compositor, com outro gosto, usando a minha técnica, vai tecer uma outra malha sonora”, escreveu em “Viver sua Música”.
Perde-se Mendes; sua obra permanece, à espera de ser (re)descoberta em suas múltiplas faces criativas, sempre pronta a nos surpreender uma vez mais.   



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Para conhecer + Gilberto Mendes...

*Livros
(do autor)
“Uma Odisséia Musical”. Edusp, 1994.
 “Viver sua Música”. Edusp/Realejo, 2008.

(sobre o autor)
“Gilberto Mendes: vanguarda e utopia nos mares do sul”. Teresinha Prada. Ed. Terceira Margem, 2010.
“Gilberto Mendes: entre a vida e a arte”. Carla Delgado de Souza. Editora da Unicamp, 2013.


*Documentário (DVD)
“A Odisséia Musical de Gilberto Mendes”. Carlos de Moura Mendes, 2006.


(Vai e Vem)






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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado na área literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e música para o Valor Econômico. Também colabora com o site português Jazz.pt. É autor das liner notes dos álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)


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